As falas do presidente argentino Javier Milei têm causado danos à imagem do país e exposto uma profunda degradação do cenário político, segundo analistas consultados pelo Valor. Em menos de uma semana, o líder libertário fez declarações que abalaram a confiança de investidores e parceiros comerciais, gerando volatilidade no mercado financeiro e preocupações sobre a governabilidade.
Impacto imediato nas finanças
Na última segunda-feira, Milei afirmou, em entrevista coletiva, que o país poderia abandonar o Mercosul caso as negociações comerciais não avançassem. A declaração provocou uma queda de 4,3% no índice Merval e disparada do risco-país, que atingiu 1.850 pontos. “O presidente não mede as consequências de suas palavras. Cada declaração impensada custa caro ao país”, disse o economista Carlos Melconian, da consultoria FIEL.
Além disso, Milei sugeriu que o governo poderia revisar contratos de dívida em dólar, o que gerou pânico entre credores internacionais. O índice de ações argentinas acumula perda de 12% desde o início do mês.
Reações no âmbito político
Parlamentares da oposição e até mesmo aliados moderados criticaram a postura do presidente. O senador Martín Lousteau, da União Cívica Radical, classificou as falas como “irresponsáveis e prejudiciais à nação”. Enquanto isso, a vice-presidente Victoria Villarruel tentou amenizar os efeitos, afirmando que “as palavras do presidente foram mal interpretadas”.
Analistas apontam que a estratégia de comunicação de Milei, baseada em ataques a instituições e desrespeito a normas diplomáticas, tem isolado a Argentina no cenário internacional. “Ele transformou a política externa em um ringue de boxe”, afirmou a cientista política María Esperanza Casullo, da Universidade Nacional de Quilmes.
Degradação do debate público
Especialistas veem um padrão de comportamento que vai além da simples retórica agressiva. “Milei utiliza termos como ‘elite corrupta’ e ‘casta política’ para deslegitimar qualquer oposição, o que deteriora o respeito institucional”, escreveu o jornalista e escritor Jorge Fontevecchia em sua coluna. Esse discurso, segundo ele, alimenta a polarização e a desconfiança na democracia.
Pesquisa recente da consultora CB revelou que 62% dos argentinos acreditam que as declarações do presidente estão prejudicando a imagem do país no exterior. O número representa um aumento de 18 pontos percentuais em relação a três meses atrás.
Consequências econômicas de longo prazo
A incerteza gerada pelas falas de Milei já afeta investimentos produtivos. A Câmara Argentina da Construção informou que projetos de infraestrutura no valor de US$ 1,2 bilhão foram suspensos ou adiados desde maio. O setor industrial também sofre: a produção caiu 3,1% em junho, na comparação anual, segundo o Indec.
“Cada declaração controversa cria um ambiente hostil para negócios. As empresas precisam de previsibilidade, e o presidente oferece justamente o oposto”, avaliou o economista-chefe da Fundação Mediterrânea, Jorge Vasconcelos.
Perspectivas para o futuro
Apesar das críticas, Milei mantém aprovação de 38%, segundo pesquisa da Poliarquía. Seu núcleo duro de apoiadores vê nas falas polêmicas uma forma de romper com o establishment. Contudo, analistas advertem que o desgaste internacional pode comprometer a recuperação econômica e o acesso a financiamento externo.
“O presidente precisa entender que a diplomacia exige ponderação. Caso contrário, a Argentina continuará pagando o preço de sua intemperança”, concluiu Melconian.



