O ex-secretário do Tesouro Nacional, Marcos Durigan, classificou o recente tarifaço anunciado pelo governo como uma medida essencialmente política, que deve dificultar sobremaneira a construção de um acordo entre o Executivo e o Congresso Nacional antes das eleições de outubro. Em entrevista ao Valor, Durigan afirmou que a elevação das tarifas de importação para centenas de produtos não tem justificativa técnica consistente e foi desenhada para atender a demandas de setores específicos da base aliada, em um claro movimento eleitoreiro.
Motivação eleitoral
“O tarifaço é claramente político e visa ganhos eleitorais. Não há nenhum estudo de impacto que mostre benefícios para a economia como um todo. Pelo contrário, a medida aumenta custos para a indústria e para o consumidor final”, disse Durigan. Ele destacou que, em um momento de inflação ainda elevada e juros altos, qualquer incremento nos preços é contraproducente. A decisão, tomada sem ampla consulta aos ministérios econômicos, sinaliza um desalinhamento dentro do próprio governo.
Para Durigan, o tarifaço também complica as negociações em torno do novo arcabouço fiscal, que dependem de um ambiente de cooperação entre os Poderes. “Como pedir apoio do Congresso para aprovar medidas de ajuste fiscal se o governo age de forma unilateral e prejudicial? Isso queima a confiança e torna qualquer acordo muito mais difícil”, complementou.
Impactos econômicos
De acordo com estimativas preliminares de economistas do setor privado, a medida pode elevar a inflação em até 0,3 ponto percentual neste ano, com efeitos mais intensos sobre bens de consumo duráveis. Além disso, setores como o de máquinas e equipamentos, que dependem de insumos importados, já sinalizaram revisão de planos de investimento. “O tarifaço é um tiro no pé”, resumiu Durigan, que ocupou a Secretaria do Tesouro entre 2023 e 2025.
Reações políticas
A declaração de Durigan ecoa críticas de parte do meio empresarial e de lideranças da oposição. O presidente da Frente Parlamentar da Economia, deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), disse que “o governo troca o desenvolvimento por migalhas eleitorais”. Já a base aliada defende a medida como necessária para proteger a indústria nacional. No entanto, Durigan rebate: “Protecionismo sem prazo e sem contrapartidas só gera ineficiência e prejuízo ao consumidor”.
O ex-secretário ainda alertou que o tarifaço pode gerar retaliações comerciais, especialmente de parceiros como a China e a União Europeia, com quem o Brasil já enfrenta litígios na OMC. “Em um cenário de comércio global fragilizado, o Brasil não pode dar sinais de fechamento”, afirmou.
Cenário pré-eleitoral
Com as eleições se aproximando, a capacidade de articulação do governo sofreu mais um revés. “Acordos que exigem renúncia de curto prazo para ganhos futuros ficam inviáveis quando o horizonte é eleitoral. O tarifaço mostra que o governo priorizou interesses imediatos”, concluiu Durigan. A expectiva de analistas políticos é que o ambiente de negociação piore ainda mais nas próximas semanas, dificultando a aprovação de medidas indispensáveis para a sustentabilidade fiscal.
O Ministério da Fazenda não se pronunciou até o fechamento da reportagem. Nos bastidores, fontes da equipe econômica reconhecem que a decisão não foi técnica, mas ponderam que a pressão política era intensa. Resta saber se o custo político e econômico do tarifaço será maior que o benefício eleitoral pretendido.



