Desindustrialização à brasileira: análise do fenômeno
Desindustrialização à brasileira: análise

A desindustrialização no Brasil é um fenômeno que vem sendo observado desde a década de 1980, quando a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) começou a declinar de forma consistente. Diferentemente do que ocorreu em países desenvolvidos, onde a redução do peso industrial foi acompanhada por um aumento da produtividade e da sofisticação tecnológica, no Brasil esse processo tem sido precoce e associado a uma estagnação da produtividade.

Queda da participação industrial no PIB

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a participação da indústria de transformação no PIB caiu de cerca de 30% no início dos anos 1980 para aproximadamente 11% em 2020. Essa trajetória é atípica em comparação com outros países emergentes, como China e Coreia do Sul, que mantiveram ou aumentaram sua base industrial ao longo do mesmo período.

Segundo o economista Paulo Gala, especialista em desenvolvimento econômico, "a desindustrialização brasileira é preocupante porque ocorre sem que o país tenha atingido um nível elevado de renda per capita, diferentemente do que se viu em nações desenvolvidas". Ele destaca que a perda de complexidade industrial compromete a capacidade de inovação e a geração de empregos de qualidade.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Causas estruturais

Entre os fatores que explicam esse fenômeno estão a política cambial, que por longos períodos valorizou o real, prejudicando a competitividade das exportações industriais; a elevada carga tributária e a burocracia; a infraestrutura deficiente; e a falta de investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Além disso, a abertura comercial dos anos 1990 expôs a indústria nacional à concorrência externa sem uma contrapartida de modernização.

O estudo "Desindustrialização e Doença Holandesa: o caso brasileiro", do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que a abundância de recursos naturais e a especialização em commodities agrícolas e minerais contribuíram para a redução do dinamismo industrial. Esse fenômeno, conhecido como "doença holandesa", desestimula a produção de bens manufaturados ao tornar mais lucrativa a exportação de produtos primários.

Consequências econômicas e sociais

O encolhimento da indústria tem impactos diretos sobre o mercado de trabalho. Dados do Ministério do Trabalho indicam que o emprego formal no setor industrial caiu de 10,5 milhões em 2013 para 9,2 milhões em 2020, uma redução de mais de 12%. Em contrapartida, o setor de serviços absorveu parte desses trabalhadores, mas com salários médios inferiores e menor estabilidade.

Além disso, a desindustrialização afeta a balança comercial. O Brasil, que historicamente exportava manufaturados, passou a registrar déficits crescentes nesse segmento, enquanto o superávit em commodities se amplia. Isso torna a economia mais vulnerável a choques externos, como a volatilidade dos preços das matérias-primas.

Para o ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, "a reversão desse quadro exige reformas estruturais, como a simplificação tributária, a melhoria da infraestrutura e o estímulo à inovação. Sem uma política industrial consistente, o Brasil continuará perdendo espaço no cenário global".

Perspectivas futuras

Embora haja consenso sobre a gravidade do problema, as soluções ainda são objeto de debate. Alguns defendem uma política industrial ativa, com subsídios e proteção tarifária seletiva, enquanto outros apostam em reformas macroeconômicas que reduzam o custo Brasil e aumentem a competitividade sistêmica.

O governo federal, por meio do Ministério da Economia, anunciou em 2021 a Nova Política Industrial, que prevê incentivos para setores estratégicos como tecnologia da informação, saúde e energia renovável. No entanto, críticos apontam que os recursos destinados são insuficientes e que falta coordenação entre as diferentes esferas de governo.

Em suma, a desindustrialização brasileira é um processo complexo, com raízes históricas e estruturais, cuja reversão demandará um esforço conjunto de políticas públicas e investimentos privados. O país precisa recuperar sua capacidade de gerar valor agregado e inovação para garantir um crescimento sustentável e inclusivo no longo prazo.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar