A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia defendeu nesta segunda-feira (27) a democracia brasileira durante a reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Niterói, Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Em seu discurso, ela afirmou que ninguém deve interferir nas decisões do país e que os brasileiros têm o direito de definir seus próprios rumos, em uma fala marcada por referências ao período da ditadura militar e à defesa do sistema eleitoral.
Defesa da soberania nacional
Sem mencionar nominalmente líderes estrangeiros, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que já foi acusado de tentar interferir nas eleições brasileiras, Cármen Lúcia fez um alerta contra tentativas de fragilização das instituições democráticas. “Há que haver espaços como este, reuniões como essa, que dão a demonstração daqueles vetores, daqueles temas mais importantes para que a gente caminhe e fortaleça a democracia no Brasil e em todos os lugares do mundo, para que ninguém queira também interferir e fragilizar a nossa democracia”, declarou.
A ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reforçou que cabe aos próprios brasileiros decidir o que desejam para o país: “Somos nós que temos que falar o que é para nós no Brasil, o que nós queremos”, afirmou.
Memórias da ditadura e resistência
Ao longo do discurso, Cármen Lúcia relembrou sua experiência durante a ditadura militar (1964-1985) e destacou o papel de instituições como a SBPC como espaços de resistência e debate em um período de restrições às liberdades. “Eu, no período em que fui estudante, algumas instituições eram nossa voz, porque estávamos com a boca amordaçada. Proibidas de pensar”, declarou.
Segundo a ministra, as eleições da entidade científica mobilizavam a sociedade porque representavam uma oportunidade de manifestação em um período de repressão política. “As eleições da SBPC eram aguardadas por nós, eram de conhecimento do Brasil inteiro. Cumpria a voz de ser daqueles que não podiam levantar sua voz”, afirmou.
Confiabilidade das urnas eletrônicas
Cármen Lúcia também associou a democracia ao exercício do voto e voltou a defender a confiabilidade da urna eletrônica. Ao comentar o lançamento de um livro sobre a Constituição, ela disse que, diferentemente dos regimes em que as decisões eram tomadas por monarcas, na democracia a vontade popular se manifesta por meio das eleições. “Antes era por um rei. Hoje o povo, pela sua mão, diz o que quer”, afirmou.
“Aqui na democracia, a urna brasileira precisa só de um dedo na urna eletrônica confiável, transparente e auditável. Feita pelo Brasil e pelo povo”, completou a ministra.
A declaração ocorre em meio a acusações infundadas contra o sistema eleitoral brasileiro. Recentemente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, repetiu ataques às urnas eletrônicas que já foram desmentidos pelo TSE. Cármen Lúcia não citou diretamente o parlamentar, mas sua fala reforçou a segurança do processo eleitoral.
Liberdade de expressão e democracia
A ministra enfatizou que a democracia não se sustenta sem a participação popular e a liberdade de expressão. Ela lembrou que, durante a ditadura, a SBPC funcionava como um canal de voz para aqueles que não podiam se manifestar livremente. “As eleições da SBPC eram aguardadas por nós, eram de conhecimento do Brasil inteiro. Cumpria a voz de ser daqueles que não podiam levantar sua voz”, repetiu, destacando a importância de manter espaços de debate abertos.
O evento da SBPC, que reúne cientistas e intelectuais, foi palco de um discurso que mesclou defesa institucional, memória histórica e apelo à soberania nacional. Cármen Lúcia encerrou sua participação reiterando que a democracia brasileira é forte e capaz de resistir a pressões externas, desde que os cidadãos estejam vigilantes.



