A tentativa do senador Flávio Bolsonaro (PL) de construir uma imagem mais moderada para ampliar seu eleitorado, especialmente entre mulheres e independentes, sofreu um revés com a crise pública envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Na terça-feira (24), Michelle publicou um vídeo afirmando ter levado uma "punhalada" no ano passado, após divergências sobre o apoio do PL no Ceará a Ciro Gomes (PSDB). Ela disse ter sido "maltratada" por Flávio e que seu apoio foi tratado como "insignificante". O senador, que inicialmente reagiu dizendo que Michelle "atropelou o próprio presidente Bolsonaro" e que "não é política", depois pediu desculpas publicamente.
Especialistas apontam riscos para a estratégia eleitoral
Para Flávia Biroli, professora titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), a manifestação de Michelle tem potencial para desgastar Flávio justamente entre o público feminino, que ele tenta conquistar. "O que é mais interessante na fala da Michelle Bolsonaro é que ela está ativando as mulheres conservadoras, mas com uma linguagem muito próxima do feminismo, que defende o respeito às mulheres como sujeitos na vida pública e na política. Ela identifica Flávio como um homem que desrespeita mulheres", afirma.
Mayra Goulart, diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, avalia que a crise complica não só a ampliação do eleitorado, mas também a atração de apoio de elites políticas. "Quanto mais turbulenta for essa campanha, menor será a disposição de aderir a ela", diz a especialista.
Já Luciana Veiga, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, acredita que o principal efeito da crise é o enfraquecimento da capacidade de unificação do bolsonarismo em torno de uma única liderança. "A crise promove um ruído na campanha", afirma.
Flávio adota discurso social próximo ao de Lula
Como parte da estratégia de moderação, Flávio Bolsonaro vem repetindo frases e promessas típicas da esquerda. Em evento em Guarulhos, em 20 de junho, ele prometeu cumprir um "pacto contra a fome", ecoando promessa de Lula (PT) de 2003. Dias antes, defendeu a manutenção do Bolsa Família como "direito adquirido". Para o consultor de comunicação política Marcelo Vitorino, a estratégia busca conquistar eleitores de Lula. "Se Flávio conseguir beliscar 5% desses votos, ele avança sobre o eleitor do adversário", disse.
No mesmo discurso, o senador encerrou com a frase "a esperança vai vencer o medo", usada por Lula em 2022. Vitorino afirma que vender esperança é historicamente mais eficiente que vender medo, especialmente quando parte da população avalia bem o governo.
Mudança de tom sobre tarifas dos EUA após pesquisas
Pesquisa Quaest de junho mostrou que 47% dos entrevistados consideram Lula mais patriota que Flávio (37%). O mesmo percentual (47%) acredita que Flávio incentivou o tarifaço americano, contra 35% que aceitam sua versão. Após a divulgação, Flávio afirmou que viajará aos EUA para defender empresas brasileiras. "Não é justa mais essa sobretaxa nos nossos produtos", declarou. Em 2025, quando Trump anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, Flávio evitou criticar o presidente americano e chegou a dizer que o tarifaço poderia dar um "empurrãozinho" para a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.
Plano de segurança radical contrasta com moderação social
Apesar do tom moderado em pautas sociais, Flávio apresentou 12 medidas para segurança pública com propostas radicais, como redução da maioridade penal para 16 anos, castração química para condenados por abuso sexual, construção de cinco presídios de segurança máxima inspirados em El Salvador, classificação de facções e milícias como organizações narcoterroristas, e redirecionamento de benefícios de presos para vítimas.
Para Mayra Goulart, isso mostra limites da moderação. "A extrema direita costuma disputar símbolos tradicionalmente associados à esquerda sem abandonar suas posições centrais. Não é um movimento de moderação propriamente dito, mas de disputa pelo significado dessas ideias", diz. Flávia Biroli complementa: "Existe uma tensão entre permanecer identificado com a extrema direita radical e ampliar o número de eleitores por meio de uma suavização retórica. Se ele suaviza demais, corre o risco de se tornar apenas mais um político da direita tradicional e perder a identidade construída pelo bolsonarismo".



