Em um cenário político cada vez mais polarizado, figuras e instituições que tentam coibir abusos de poder tornam-se alvos de ambos os espectros ideológicos. A afirmação parte de analistas e membros do Judiciário que veem na atual conjuntura uma dificuldade crescente para manter a imparcialidade e a eficácia dos mecanismos de controle.
O cerco aos fiscalizadores
Nos últimos meses, pelo menos três iniciativas de combate a irregularidades administrativas foram duramente criticadas tanto por aliados do governo quanto pela oposição. O primeiro caso envolve a atuação da Controladoria-Geral da União (CGU), que abriu investigação sobre contratos públicos em uma estatal. A medida gerou protestos de parlamentares governistas, que acusaram a CGU de perseguição política. Simultaneamente, lideranças oposicionistas também atacaram o órgão, classificando a investigação como superficial e tardia.
Outro exemplo é a atuação de um juiz federal no Norte do país, que determinou a quebra de sigilo de prefeitos de diferentes partidos por suspeita de desvio de verbas da saúde. O magistrado passou a receber ameaças e críticas públicas: enquanto prefeitos da base aliada o chamaram de “ativista”, os da oposição o acusaram de “seletividade”. O juiz, que pediu anonimato por segurança, afirmou que “quem tenta aplicar a lei independentemente acaba sendo atingido por todos os lados”.
Polarização fragiliza instituições
Especialistas apontam que a falta de diálogo e a radicalização política criam um ambiente em que qualquer ação de fiscalização é interpretada como partidária. “O combate a abusos de poder exige um pacto mínimo entre as forças políticas, mas hoje cada lado vê a fiscalização como uma arma do adversário”, explica a cientista política Marina Alves, da Universidade de Brasília. Segundo ela, essa percepção mina a credibilidade das instituições e desestimula a atuação de agentes públicos.
Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que denúncias de ameaças a membros do Ministério Público e da magistratura cresceram 40% entre 2024 e 2026. O levantamento aponta que, em 70% dos casos, as ameaças partem de grupos políticos organizados, tanto de situação quanto de oposição.
O papel do Congresso e da sociedade
A situação se agrava quando o próprio Congresso Nacional é palco de disputas que paralisam pautas de transparência. Projetos que criam mecanismos de controle de contas públicas enfrentam resistência em comissões, com deputados e senadores de diferentes bancadas apresentando emendas que esvaziam o texto original. Em 2025, uma proposta de lei que obriga a divulgação de emendas parlamentares em tempo real foi aprovada na Câmara, mas sofreu mais de 200 alterações no Senado, tornando-se inócua.
Para o procurador federal aposentado Luís Carlos Menezes, a omissão da sociedade também contribui. “A população, muitas vezes, fecha os olhos para abusos cometidos por seus representantes, desde que esses representantes estejam de acordo com suas posições políticas. Isso enfraquece a democracia”, afirma.
Casos emblemáticos
Um dos casos mais emblemáticos dos últimos anos foi a tentativa de impeachment de um governador do Nordeste, acusado de superfaturar contratos de merenda escolar. A iniciativa partiu de uma coalizão de partidos de oposição, mas rapidamente perdeu força quando se descobriu que os mesmos partidos haviam se beneficiado de esquemas semelhantes em outros estados. O governador permaneceu no cargo, e a CPI instaurada foi arquivada sem conclusão.
Em contrapartida, no Sul do Brasil, um prefeito que denunciou irregularidades na Saúde foi afastado do cargo pelo Tribunal de Justiça local após pressão de vereadores da base aliada. A decisão foi criticada por entidades de direitos humanos, que apontaram “lawfare” – uso do sistema judicial para fins políticos. O caso revela como a acusação de abuso de poder pode ser manipulada para atingir adversários ou silenciar aliados incômodos.
Saída institucional
Diante do cenário, a saída apontada por analistas é o fortalecimento de órgãos colegiados e a criação de mecanismos de proteção para agentes que atuam no combate à corrupção. “Precisamos de uma blindagem que impeça que o fiscalizador seja alvo de retaliações”, defende a deputada federal Ana Cristina (PSB-SP), que apresentou um projeto de lei para criar um estatuto de proteção a servidores públicos que denunciam irregularidades.
Enquanto isso, o país observa um paradoxo: a democracia brasileira permite o combate a abusos, mas o ambiente político hostil inviabiliza a atuação independente. A tendência, caso não haja mudança de postura, é que cada vez menos pessoas se disponham a enfrentar os dois lados da moeda.



