Mesmo liderando as pesquisas de intenção de voto para o governo de Minas Gerais, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) acabou fora da corrida eleitoral. A decisão, que à primeira vista pode parecer contraditória, é explicada por analistas políticos como um movimento preventivo diante da falta de sustentação partidária e das dificuldades de governar um estado com forte pressão fiscal e legislativa.
Cleitinho despontou como o nome favorito no início da disputa, impulsionado pela popularidade nas redes sociais e pelo perfil de outsider que marcou outras eleições recentes. No entanto, conforme o calendário eleitoral avançou, sua candidatura perdeu força. Outros nomes se articularam por dentro dos partidos, e o senador viu o espaço se fechar.
O fantasma de Wilson Witzel
Para o cientista político Jorge Chaloub, professor da UFRJ, a decisão de Cleitinho não pode ser lida apenas como resultado de uma negociação partidária fracassada. Há, por trás dela, um cálculo sobre os riscos de assumir o governo do estado sem uma base de apoio consolidada. O receio, segundo Chaloub, tem nome: Wilson Witzel.
"Tem um fantasma que assombra esse tipo de candidato, que é o fantasma do Wilson Witzel", afirmou o professor ao Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney. Witzel foi eleito governador do Rio de Janeiro com votação expressiva, mas não conseguiu transformar o capital eleitoral em capacidade de articulação política. Acabou isolado, perdeu apoio e terminou o mandato de forma melancólica.
Na avaliação de Chaloub, o cargo de governador concentra prestígio, mas também expõe o ocupante a riscos enormes. "O cargo de governador é um posto de muito prestígio, mas também um posto em que os perigos são muito grandes", disse. A trajetória de Witzel, ressaltou, deixou uma lição: vencer a eleição é apenas o primeiro passo; é preciso governar com o Legislativo e com as estruturas partidárias.
"O Witzel teve uma vitória meteórica. Por não conseguir articular uma base de governo, perdeu rapidamente o apoio. Me parece que existe um temor do Cleitinho de reproduzir esse cenário: chegar ao governo mobilizando o eleitorado, mas sem apoio suficiente para governar", completou.
Timing perdido
A leitura é compartilhada por Paulo Gama, head de Análise Política da XP. Para ele, Cleitinho tinha potencial eleitoral de sobra, mas não soube converter isso em viabilidade dentro do sistema partidário. O senador teve a chance de se apresentar como um nome confiável para a política institucional, mas deixou o momento passar.
"Ele perdeu o timing. Ele tinha um potencial de construir a candidatura. A partir do momento em que tinha essa intenção de voto, conseguiria mudar um pouco o perfil e tentar se mostrar para a política institucional como alguém mais confiável. Mas preferiu um caminho distinto e a gente viu outras candidaturas se articulando e aparecendo", afirmou.
Gama também destacou a imprevisibilidade do senador como um fator que afastou partidos e lideranças. "A gente não tinha clareza de qual caminho ele seguiria e nem muita confiança de que, uma vez consolidada a candidatura, seria um palanque sólido para uma candidatura de oposição ao Lula", disse.
Em resumo, o analista definiu o impasse: "Ele era alguém com potencial de voto muito grande, mas com pouca confiabilidade da política institucional."
O limite dos outsiders
Para Chaloub, a forma como Cleitinho construiu a própria carreira política, apoiado quase exclusivamente na popularidade, tornou-se um obstáculo no momento em que precisava fechar acordos. As cúpulas partidárias enxergam com desconfiança candidatos que não demonstram disposição para compartilhar o poder.
"A construção da trajetória do Cleitinho não se mostrou confiável o suficiente para compensar os acordos partidários. Os dirigentes partidários têm receio de apoiar alguém sem a certeza de que também participarão do governo depois", afirmou.
O caso de Cleitinho indica que a popularidade, por si só, deixou de ser um ativo suficiente para viabilizar uma candidatura majoritária. A experiência recente de governadores eleitos como outsiders, a necessidade de formar maiorias legislativas e o aperto fiscal dos estados elevaram o custo da falta de articulação.
Ao ficar de fora da disputa, Cleitinho abre espaço para que outros nomes da direita mineira disputem o eleitorado conservador. O cenário, no entanto, fica mais uma vez marcado pela dificuldade de traduzir apoio popular em projeto de poder viável.
O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 6h da manhã, no YouTube e nos principais agregadores de podcast.



