Vivemos um tempo de fadiga. No cenário global, conflitos e incertezas econômicas se acumulam; no Brasil, a polarização política atingiu um nível de saturação que beira o insuportável. Há um cansaço difuso – físico e mental – que, inevitavelmente, se refletirá nas urnas. Se não for suficiente para alterar de imediato o tabuleiro político, ao menos deixará uma mensagem inequívoca: basta.
O que é moderação e por que ela é urgente
Diante desse contexto, torna-se urgente resgatar um conceito simples na forma, mas essencial na prática: a moderação. Ser moderado não é ser isento ou desprovido de convicções. Ao contrário, é justamente a clareza de princípios que permite evitar os excessos. A moderação confere equilíbrio, afasta preconceitos e torna possível o diálogo em meio ao ruído. Em ambientes decisórios, ela é sinônimo de consistência, pois raramente caminhos extremos produzem soluções sustentáveis.
Os perigos do radicalismo
O radicalismo, por sua natureza excludente, tende a isolar seus defensores. Ao se comportarem como “donos da verdade”, ajustam a realidade às suas convicções – e não o contrário. Criam-se, assim, distorções convenientes: o “bom” e o “mau” conforme a ideologia, a qual relativiza ou torna secundários valores e princípios universais. De um lado, demoniza-se o empreendedor; de outro, diviniza-se o mercado, deixando de atentar para as responsabilidades sociais que deve assumir. Ambos os extremos fracassam ao tentar reduzir a complexidade humana a fórmulas simplistas.
O custo desse processo é elevado: perde-se a confiança, um ativo que leva décadas para ser construído e segundos para ser destruído. Quando instituições se deixam capturar por visões radicais e se permitem invadir por ideologias, sua credibilidade se dissolve e o prejuízo é coletivo. Já vimos momentos em que dados oficiais perderam a aceitação automática e indicadores econômicos foram abertamente contestados porque o “objetivo fim” estava contaminado pela conveniência política. E quando o dado deixa de ser um espelho da realidade para ser uma ferramenta de narrativas, a credibilidade do País sofre. E sem confiança, não há desenvolvimento sustentável.
A moderação como ativo estratégico
A moderação, portanto, deve ser compreendida como um ativo estratégico. Sua importância não é apenas prática, mas também filosófica. Desde a Antiguidade, diferentes tradições convergem para a mesma ideia. Aristóteles formulou a doutrina do justo meio, segundo a qual a virtude reside entre o excesso e a falta. Buda propôs o caminho do meio, rejeitando extremos como via de realização. Confúcio valorizou o equilíbrio e a harmonia como fundamentos da vida social. Horácio, por sua vez, consagrou a aurea mediocritas, a dourada mediania.
A História confirma essa tese. Grandes avanços institucionais nasceram da capacidade de concertação – o ato de harmonizar interesses em busca de um objetivo comum. A Constituição dos Estados Unidos é fruto desse espírito: líderes evitaram o radicalismo e criaram um sistema de freios e contrapesos que garantiu estabilidade ao longo dos séculos. Na África do Sul, o fim do apartheid só foi possível porque Nelson Mandela optou pelo diálogo, construindo, ao lado de seus antigos adversários, uma transição pacífica.
Exemplos brasileiros de concertação
No Brasil, exemplos não faltam. A independência ocorreu com relativa estabilidade e preservação da unidade territorial. A redemocratização de 1985 foi fruto de negociação, não de ruptura. A Constituição de 1988 consolidou direitos e fortaleceu o Estado de Direito. O Plano Real, por sua vez, demonstrou como o alinhamento de esforços pode enfrentar desafios complexos, como a hiperinflação.
Esses casos mostram que concertar – no sentido de ajustar, harmonizar – é condição para consertar. O diálogo estruturado, ancorado em princípios claros, é o caminho mais eficaz para resolver conflitos e promover o desenvolvimento. Radicalismos podem até vencer no curto prazo, mas são intrinsecamente instáveis. Alimentam-se do confronto e consomem energias que poderiam ser direcionadas à construção de prosperidade.
O apelo da sociedade por estabilidade
Hoje, mais do que nunca, essa reflexão se impõe. O esgotamento coletivo revela que a sociedade já não tolera disputas estéreis. As pessoas desejam previsibilidade, estabilidade e confiança nas instituições. Querem trabalhar, produzir e viver num ambiente em que diferenças possam coexistir sem se transformar em antagonismos permanentes.
Cabe, portanto, às lideranças compreender este momento. É preciso abandonar a retórica do confronto e assumir o compromisso com a concertação. Não se trata de abrir mão de convicções, mas de reconhecer que nenhum projeto de nação se sustenta sem diálogo e equilíbrio. O “concerto” – entendimento entre as partes – é o único caminho para o verdadeiro “conserto” de nossas mazelas sociais e econômicas.
Sem moderação, permaneceremos presos a um ciclo de desconfiança e destruição mútua. Com ela, porém, será possível reconstruir pontes, fortalecer instituições e edificar um futuro mais estável. Em última instância, a moderação não é apenas uma virtude individual: é o fundamento sobre o qual se constroem nações prósperas.



