Um brasileiro de 35 anos deixou a vida no litoral paulista para se alistar no Exército Ucraniano após perder mais de R$ 340 mil em apostas online. Thiago Morais da Silva Moita, em entrevista ao g1, contou que a mudança drástica o ajudou a superar o vício em jogos de azar.
"Eu estava me destruindo. Pensei: 'Eu preciso sair daqui, preciso mudar'. O meu pai me falou: Você já apostou tudo que você tem, agora vai apostar a sua vida? [...] Eu precisava sair daquele ambiente para mudar o meu raciocínio, sair daquela prisão mental", desabafou Moita.
O alistamento e a rotina na guerra
Morador de Iguape, no litoral de São Paulo, Moita começou a servir no Exército da Ucrânia em março, após se alistar na Legião Internacional de Defesa da Ucrânia. Desde então, passou por treinamentos e missões. Segundo ele, a decisão veio após uma psicóloga diagnosticar indícios de ludopatia – o vício em jogos de azar, classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental que afeta o sistema de recompensa cerebral.
Moita afirmou que, em um único dia, chegou a perder mais de R$ 75 mil apostando. Natural do Rio de Janeiro, ele se mudou para Iguape em 2022 após obter a guarda do filho. Na nova cidade, trabalhou com vendas de eletrônicos e como motorista de aplicativo, mas apostou todo o dinheiro conquistado. "Cheguei a mandar meu pai confiscar o meu telefone para não jogar", contou.
Reação da família e o apelido 'BadBoy'
A decisão de se alistar não foi bem recebida por parte da família, que também é formada por militares. Para Moita, porém, o desafio mudou sua percepção sobre o dinheiro. Em seu perfil nas redes sociais, nomeado 'BadBoynaUcrania', ele compartilha o dia a dia na guerra, com treinamentos diários de 12 horas, onde aprende a manusear armas, minas, granadas, explosivos e táticas militares.
O apelido 'BadBoy', segundo ele, era como chamava um grupo de amigos na infância em São Gonçalo (RJ) e foi incorporado à tarja de identificação no Exército. "Aqui ninguém sabe o nome de ninguém, só pela 'chapa'. Ninguém aqui me conhece como Thiago", disse.
Riscos e convivência com conflitos
Moita destacou que a rotina é marcada por missões e períodos de descanso em bases militares. As missões podem durar de uma semana a 40 dias, dependendo da necessidade operacional. Ele afirmou que há outros treze brasileiros no batalhão onde está alocado e que não atua nas equipes de "assalto", envolvidas diretamente em confrontos armados com os russos. No entanto, a tropa convive com ataques de drones e mísseis.
Desde março, Moita estava alocado em uma região considerada perigosa. "Era um pesadelo. Menos de uma semana depois que cheguei lá, caiu um míssil na minha casa. Passou um caça e jogou três bombas lá", disse. Após ser transferido para uma região considerada mais segura, ocorreu um ataque que deixou dezenas de mortos. "Se eu não tivesse sido transferido a tempo, estaria morto agora", relatou, destacando a perda de um colega brasileiro.
Planos de retorno e alerta
Moita revelou que deve retornar ao Brasil entre novembro e dezembro, durante o período de férias de um mês previsto no contrato. Após isso, ele deve definir se rescindirá o acordo ou seguirá pelos próximos três anos representando o Exército Ucraniano. "Não sei o que vai acontecer daqui para frente", afirmou.
Mesmo sendo remunerado como combatente, Moita destacou os riscos do alistamento. "As pessoas têm que ficar sabendo que você tem que ficar aqui no mínimo seis meses. Três colegas meus fugiram [foram desertores]. E eles eram os melhores", finalizou.



