Durante muito tempo, o Brasil se acostumou a ocupar um lugar privilegiado no futebol mundial. Crescemos ouvindo que o talento brasileiro era inesgotável, que sempre surgiria um novo craque capaz de decidir uma Copa do Mundo e que nossa capacidade de formar jogadores era quase um atributo natural. Essa narrativa fez sentido por décadas e ainda se sustenta em certa medida. Hoje, porém, ela já não explica a realidade do futebol internacional.
França como fábrica global de talentos
Quem acompanha a indústria de perto percebe que estamos vivendo uma mudança estrutural. O Brasil continua formando grandes atletas, mas deixou de ocupar sozinho o centro desse ecossistema. O futebol mundial se acirrou imensamente fora das quatro linhas, na racionalização da gestão e da alocação de recursos, na qualidade dos processos e da formação, e na capacidade de pensar o esporte como um projeto de longo prazo.
Os números desta Copa ajudam a ilustrar essa transformação. O exemplo mais emblemático é a França: neste momento disputam o torneio 99 jogadores nascidos no país, sendo que apenas 23 defendem a seleção francesa. Os outros 76 vestem as camisas de Argélia, Senegal, Costa do Marfim, República Democrática do Congo, Haiti e dezenas de outros países. Não se trata apenas de uma curiosidade estatística. É a demonstração de que a França se consolidou como o maior celeiro de talentos do futebol mundial.
Talento exige método
Esse protagonismo não nasceu por acaso. Também não pode ser explicado apenas pela diversidade cultural do país, pelo contexto imigratório e relação próxima com ex-colônias africanas, ou pelo tamanho de sua população. O que existe por trás desse resultado é um trabalho consistente, construído ao longo de décadas, com investimento em categorias de base, qualificação de profissionais, integração entre clubes e federação, uso de dados, ciência do esporte e uma visão de desenvolvimento que ultrapassa os ciclos políticos e esportivos.
Como investidores no esporte, acompanhamos diariamente como os mercados mais maduros encaram a formação de atletas, um dos fatores mais estratégicos e estruturais da operação de qualquer clube de futebol no mundo todo. Existe uma diferença importante entre revelar jogadores e construir um sistema capaz de formá-los continuamente e em escala.
A França deixou de depender de gerações isoladas porque criou um ambiente que aumenta, ano após ano, a probabilidade de que novos talentos apareçam — é um sistema de monitoramento, identificação e desenvolvimento de talento que funciona diretamente conectado na Federação Francesa de Futebol e nos clubes de futebol do país, sobretudo, aqueles nas três primeiras divisões.
Esses processos fazem com que atletas de todo o país e, especialmente do subúrbio expandido de Paris (onde está aproximadamente 20% da população francesa) cheguem a Clairefontaine, a Granja Comary da Federação Francesa, e lá finalizem seu processo de formação — todos os grandes atletas das últimas gerações francesas (e hoje em outras seleções) passaram por lá. Esse é o verdadeiro ativo que os franceses desenvolveram.
O mesmo movimento pode ser observado em outros mercados. A Espanha conseguiu renovar sua escola de formação depois de um período de transição. O Marrocos decidiu replicar o caso de sucesso de Clairefontaine e investir pesadamente em infraestrutura, profissionais e desenvolvimento de jovens atletas, já colhendo resultados esportivos relevantes. E a Noruega, que durante muito tempo teve pouca expressão no cenário internacional, tornou-se um exemplo de como planejamento e continuidade podem acelerar o desenvolvimento de uma geração inteira.
É justamente aí que o Brasil começa a perder espaço
Há um elemento comum entre todos esses casos. Nenhum deles apostou exclusivamente no talento natural. Todos fizeram escolhas conscientes de gestão. Entenderam que jogadores não surgem apenas porque um país tem tradição no esporte. Eles aparecem e se desenvolvem quando existe um ambiente preparado para formá-los no melhor da sua essência.
Ainda temos atletas entre os melhores do mundo e continuamos exportando grandes jogadores para as principais ligas, sendo uma das maiores referências do futebol global. O problema é acreditar que isso continuará acontecendo indefinidamente sem que exista um projeto estruturado por trás. Durante muitos anos, nos acostumamos com a ideia de que o Brasil sempre revelaria novos craques, quase como se existisse uma vantagem competitiva permanente. Enquanto alimentávamos esse discurso, outros países passaram a tratar a formação de atletas como uma política de longo prazo. Investiram em gestão, governança, tecnologia, informação e desenvolvimento de pessoas. Hoje, os resultados aparecem de forma cada vez mais evidente.
Formação também é negócio
Essa diferença também pode ser medida economicamente. Entre 2014 e 2024, os clubes franceses arrecadaram cerca de €3,98 bilhões (R$23,5 bilhões na cotação atual) por meio dos mecanismos de solidariedade e compensação por formação da FIFA. Mais do que formar jogadores para sua própria seleção, a França construiu uma indústria capaz de gerar valor para seus clubes e retroalimentar o próprio sistema de formação.
Existe, inclusive, uma discussão interessante que começa a ganhar força. Quando um jogador troca de clube, existem mecanismos financeiros que remuneram quem participou da sua formação. Quando esse mesmo atleta escolhe defender outra seleção nacional, nenhum instrumento semelhante existe. Em uma Copa do Mundo marcada por dezenas de jogadores representando países diferentes de seus locais de nascimento, esse passa a ser um debate que tende a ganhar relevância.
O futebol recompensa projetos de longo prazo
Além da discussão sobre negócios, esta Copa oferece uma grande lição sobre gestão. Uma seleção campeã não nasce em quatro anos. Ela é consequência de décadas de investimento consistente, decisões técnicas, estabilidade institucional e compromisso com processos. O que vemos dentro de campo é apenas o estágio final de um trabalho muito mais profundo.
O recente momento da CBF evidencia esse contraste. Em meio a crises políticas, mudanças constantes de comando e sucessivas trocas de treinadores, o Brasil chegou ao principal torneio do futebol sem um projeto esportivo consolidado. Não é razoável imaginar que resultados sustentáveis possam surgir em um ambiente onde falta continuidade.
No fim das contas, talvez a principal mensagem desta Copa seja justamente essa. O futebol moderno recompensa cada vez menos o improviso e valoriza cada vez mais quem consegue transformar talento em método. A França entendeu isso antes dos demais e construiu um modelo admirado no mundo inteiro — talvez apenas a Argentina liderada por Lionel Messi tenha conseguido interromper a sequência que a França parecia construir entre as Copas de 2018 e 2026. Em paralelo, o Marrocos que eliminou a Holanda, a Noruega (nosso adversário no domingo) e outras nações caminham na mesma direção.
O talento brasileiro continua sendo uma das principais matérias-primas do futebol mundial. O desafio de hoje não é descobrir onde estão esses talentos. É construir e aprimorar um sistema capaz de potencializá-los de forma contínua. Porque, no esporte de alto rendimento, talento ainda faz diferença. Mas, sozinho, já não é suficiente para vencer.



