O Brasil não foi eliminado pela Noruega no domingo (5). Os 2 a 1 no MetLife Stadium, com dois gols de Haaland e um pênalti de Neymar, foram apenas a certidão de óbito. O doente vinha morrendo há 30 anos de uma doença com nome e endereço: o amadorismo da cartolagem brasileira.
A escolha que define o caráter
Em 1995, o jogador belga Bosman deu o drible mais importante da história: ganhou na Justiça o direito de o atleta ser dono do próprio passe. O futebol virou de cabeça para baixo, e cada país fez uma escolha. É nas escolhas que se conhece o caráter de homem e de federação.
A Inglaterra entregou o campeonato aos clubes, e a Premier League virou um negócio bilionário. A federação, em vez de chorar o poder perdido, foi cuidar do dever de federação: ergueu St. George’s Park e montou uma esteira de formação de treinadores. A França fez antes: Clairefontaine, rede nacional de centros de formação, técnico estudando como quem faz doutorado, e conquistou duas Copas do Mundo. A Alemanha levou um vexame na Eurocopa de 2000 e obrigou todo clube da elite a manter centro de formação de verdade; 14 anos depois, levantou a taça no Maracanã. A Espanha juntou liga bilionária com a melhor escola de treinadores do planeta.
O desenho do sucesso
O desenho é o mesmo em todo lugar que deu certo: os clubes tocam a indústria por meio das ligas, que viraram negócios bilionários, e a federação faz serviço de federação: constrói centro de treinamento de ponta, escola de técnicos, olho na base, uma verdadeira escola nacional de futebol. A liga cuida do presente; a federação semeia o futuro.
E o Brasil escolheu não escolher. A CBF quis ser tudo ao mesmo tempo: liga, federação, cartório e balcão de negócios. Controlando tudo, não organizou nada. O calendário é uma colcha de retalhos; o estadual sustenta a boquinha dos caciques; o clube, sem liga forte, vende o menino verde antes de aprender a bater escanteio; o técnico brasileiro aprende na marra, sem escola. E, quando a seleção precisou de método, importou professor da Itália.
Importação de professor e falência didática
Nada contra Ancelotti, homem sério e vitorioso; mas é a confissão de falência da nossa didática. Nós, que fomos a escola do futebol mundial, importamos professor. E a Granja Comary, bonitinha nos folhetos, perto de Clairefontaine é sítio de fim de semana.
Enquanto isso, na sala da diretoria, nem romancista policial inventaria elenco igual: presidente preso, presidente banido, presidente afastado, briga de liminar, mandato caindo de podre. De uns tempos para cá, trocou-se mais de presidente na CBF do que de lateral-esquerdo na seleção. Cadê a escola nacional de treinadores? Cadê o plano de base? Cadê um projeto que dure mais do que um mandato? Não há. Há político de futebol brigando pelo carimbo enquanto o futebol foge pela janela.
Noruega: exemplo de formação
Por isso, não me venham chorar o Haaland. Até a Noruega, com 5 milhões de habitantes e bola congelada metade do ano, montou uma formação melhor do que a nossa. Perder para eles não é zebra. Zebra é acharmos que talento se colhe de graça, geração após geração, sem plantar nada. O problema não é o músculo do norueguês; é que trocamos a nossa alma por um aplicativo.
O futuro depende de estrutura
O menino brasileiro continua nascendo craque, o que a cartolagem ainda não conseguiu impedir, embora se esforce. O que não nasce em árvore é estrutura. Estrutura se constrói, com liga forte de um lado e federação séria do outro. Enquanto isso não vier, troquem de técnico, de uniforme e de presidente — trocar de presidente, aliás, é a única tradição que a CBF mantém viva. Mas Copa, que é bom, só pela televisão. De preferência num canal que pagou bilhões para transmitir a liga dos outros.
Apito Final!



