Bradesco prevê ajuste fiscal inevitável após eleição de 2026, diz Honorato
Bradesco prevê ajuste fiscal inevitável após eleição de 2026

O economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, avalia que o próximo presidente do Brasil — independentemente do resultado da eleição de outubro — terá incentivos para encaminhar algum tipo de ajuste das contas públicas no ano que vem. Em seu cenário, a partir de 2027, o governo deve lidar com um ciclo político mais tradicional, com o primeiro ano dedicado ao ajuste fiscal, ao contrário do ciclo atual, em que os gastos foram turbinados pela PEC da Transição.

Crescimento e juros: projeções do Bradesco

Sem os estímulos econômicos atuais, a previsão do Bradesco é de que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil desacelere para 1,5% em 2027, abaixo dos 2% previstos para 2026. Já a taxa básica de juros (Selic) deve terminar 2026 em 13,75%. Em 2027, o ciclo de corte deve levar a Selic a 11%, segundo o banco. “A nossa visão é que o espaço para o Banco Central cortar o juro é maior do que está precificado no mercado”, afirma Honorato.

Honorato também projeta inflação de 5,3% em 2026 e 4,1% em 2027. Ele atribui a deterioração inflacionária a choques como a guerra, o El Niño e a perspectiva de aprovação da escala 6 por 1, além dos estímulos governamentais mais intensos que o esperado.

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Estímulos e seus efeitos de curto prazo

O economista explica que parte do crescimento do PIB em 2026 vem da antecipação de consumo impulsionada por medidas de crédito do governo. “O governo acelera o crédito e antecipa consumo. Mas, como é crédito, ele compromete a renda futura”, diz. Além disso, houve antecipação de gastos públicos em três frentes: execução de emendas parlamentares, pagamento de precatórios e fila do INSS. Para o final de 2026 e início de 2027, Honorato enxerga alta probabilidade de que esses estímulos não estejam mais presentes, levando a economia a perder força.

Ajuste fiscal: inevitável e factível

Honorato acredita que, independentemente de quem vencer a eleição, algum ajuste fiscal ocorrerá. Ele aponta duas razões: a primeira é que o ciclo político deve ser mais convencional, começando com ajuste e, depois, eventualmente acelerando gastos. A segunda é uma “engenharia reversa”: não fazer ajuste pode custar caro ao próximo presidente, dado que a dívida pública continua crescendo. “A dívida pública está crescendo e continua em expansão. Hoje, a combinação de juro, resultado primário e PIB não estabiliza a dívida pelos próximos anos”, alerta.

Para Honorato, o ajuste não é tão difícil e requer medidas tanto do lado da despesa quanto da receita. Ele sugere conter o crescimento das despesas obrigatórias, com discussões sobre Previdência, saúde, educação, reforma administrativa e BPC. No lado da receita, vê espaço limitado, mas menciona a redução de gastos tributários. “O Brasil já fez isso. Fez isso quando adotou o teto de gastos do Temer”, lembra.

Sinalização fiscal e riscos

O economista enfatiza que a sinalização de um compromisso fiscal crível é mais importante que a data exata da estabilização da dívida. “Não fazer nenhum tipo de ajuste significa conviver com o risco de que haja uma piora da percepção a respeito do Brasil”, afirma. Ele alerta que a incerteza pode cobrar um preço caro em termos de inflação, câmbio e capital político. “O convívio com essa incerteza é que pode, em um momento de virada do ambiente global, cobrar um preço caro”, diz.

Honorato também comenta o cenário internacional, destacando três blocos de incerteza: a política econômica dos EUA, as taxas de juros globais e a guerra. Ele considera fundamental que o petróleo não fique muito acima de US$ 80 para evitar alta generalizada de juros. Com o dólar entre R$ 5 e R$ 5,20, vê espaço para o real se manter contido. No entanto, alerta que a persistência da guerra pode levar o Fed a subir juros, antecipando a necessidade de ajuste fiscal no Brasil.

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