Bonds da Braskem em queda acendem alerta para ações BRKM5, avaliam especialistas
Bonds da Braskem em queda acendem alerta para ações

Os bonds (títulos de dívida) da Braskem (BRKM5) negociam com descontos crescentes, enquanto a petroquímica tenta estruturar um plano de recuperação extrajudicial e lida com os impactos financeiros do desastre socioambiental em Maceió. Para especialistas, o comportamento dos títulos de dívida acende um sinal de alerta para as ações, que negociam perto de R$ 7,60.

Queda expressiva dos bonds

No início de 2025, os bonds com vencimento em janeiro de 2030 operavam a US$ 68,30; hoje, estão em US$ 40,83. Para os papéis com vencimento em janeiro de 2050, o movimento foi similar: os títulos passaram de US$ 84,60 no começo de 2025 para US$ 54,20 em junho de 2026.

O movimento dos bonds traz uma mensagem negativa para as ações: quando os títulos de dívida passam a negociar com desconto, o mercado começa a embutir um risco maior de crédito, sugerindo que os papéis BRKM5 podem cair mais na B3.

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Risco de diluição para acionistas

Welliam Wang, gestor de fundos de ações da AZ Quest, enxerga um risco de diluição para os acionistas, pois quem possui bonds tem preferência sobre os detentores de ações dentro de uma empresa. “Um critério básico de finanças corporativas é que a dívida vem antes do valor dos acionistas. Então, se o mercado de dívida já está precificando uma perda, o valor que sobra para os acionistas deve ser muito pequeno”, afirma.

Segundo ele, embora já acumulem perdas de 36% em junho, há espaço para as ações da Braskem recuarem mais na B3. Atualmente, a companhia ainda tem um valor de mercado elevado, na visão de Wang, de R$ 5,5 bilhões. Nas últimas semanas, os papéis têm recuado em meio às dúvidas em torno de uma possível recuperação extrajudicial da petroquímica. Ao fim do primeiro trimestre de 2026, a companhia somava uma dívida bruta de US$ 9,4 bilhões (R$ 48,6 bilhões, pelo câmbio atual). Desse total, 91% estavam denominados em moeda estrangeira.

Proposta de reestruturação controversa

Conforme apurou a Coluna do Broadcast, em um desenho inicial, a Braskem teria apresentado uma proposta para alongar por cinco anos o prazo de vencimento de títulos de dívida emitidos no exterior, junto a uma redução de 2 pontos percentuais no juro dessa dívida.

Para Wang, a proposta é “dura” e contraria o princípio básico das finanças corporativas, pois impõe perdas aos detentores de títulos de dívida sem oferecer uma contrapartida equivalente aos acionistas. “Em geral, a empresa beneficia primeiro os credores e, depois, os acionistas. O que está sendo proposto inverte essa lógica”, afirma.

Na segunda-feira (22), a coluna Radar Econômico, da Veja, noticiou que a Braskem estabeleceu o dia 5 de julho como prazo limite para medir a adesão dos credores ao plano de recuperação extrajudicial. A empresa trabalha para atingir o apoio inicial de ao menos 33% dos credores por classe de dívida. Procurada pelo E-Investidor, a petroquímica não comentou.

Recuperação extrajudicial vs. judicial

A recuperação extrajudicial é vista como uma alternativa mais favorável à empresa do que a recuperação judicial, considerada mais complexa e sujeita a disputas. “Na recuperação extrajudicial, a companhia pode definir um perímetro de dívidas a reestruturar. Já na recuperação judicial, todas as dívidas entram no programa e o credor tem mais poder de negociação, dada a maior interferência judicial”, explica Marcos Camilo, CEO da Pulse Capital.

Entrada dos fundos abutres

Segundo informações da Bloomberg, a Elliott Investment Management e a SVP Global compraram dívida da Braskem. Esses investidores são conhecidos como fundos abutres, por adquirirem títulos de empresas e países que estão passando por dificuldades financeiras, seja em processo de reestruturação ou à beira da falência.

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em 2012, quando a Elliott ganhou as manchetes internacionais ao tentar tomar posse de um navio da marinha argentina, em uma época em que o país sul-americano buscava renegociar o pagamento de sua dívida.

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Para Wang, da AZ Quest, a entrada desses fundos traz uma dificuldade adicional para a Braskem conseguir aprovar um plano de recuperação extrajudicial sem contrapartida aos acionistas. “Esses investidores vão exigir ações, garantias ou prioridade no pagamento, o que seja, mas vão ser muito mais duros nas negociações”, destaca.

Diante desse cenário, Wang avalia que os acionistas da Braskem podem enfrentar diluição em qualquer processo de reestruturação, seja extrajudicial ou judicial. Isso porque uma das alternativas para reduzir o endividamento pode ser converter parte da dívida em ações, transferindo participação aos credores e diminuindo a parcela detida pelos atuais acionistas.

Por isso, o gestor alerta que, embora o preço do papel tenha recuado em junho e pareça favorável, há grande risco para o investidor pessoa física.

Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank, também passa uma mensagem de cautela e não recomenda a compra do papel. “A companhia ainda não apresenta uma perspectiva clara de recuperação e precisa de uma sinalização mais objetiva dos sócios sobre como eles pretendem equacionar sua estrutura de capital”, diz.

Caso Maceió agrava cenário

Na última semana, uma outra notícia negativa pesou sobre a Braskem. A Justiça Federal em Alagoas aceitou a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) e tornou a companhia ré por crimes ambientais relacionados ao caso do afundamento do solo em Maceió, causado pela exploração de sal-gema feita pela petroquímica. Com a notícia, os papéis da Braskem tombaram mais de 9% em um único pregão e lideraram com folga as baixas do Ibovespa no dia 16 de junho, chegando a entrar em leilão por ultrapassarem o limite de oscilação máxima permitido.

Para Camilo, da Pulse Capital, a possibilidade de aumento de despesas diante do caso e os problemas regulatórios trazem dificuldades extras para a Braskem levantar capital em reestruturações financeiras, principalmente com investidores estrangeiros que exigem maior conformidade ESG. “A notícia significa mais multas, mais obrigações de reparação e maior custo de adequação da empresa às exigências regulatórias”, diz.

Cenário petroquímico desafiador

No começo de junho, o UBS BB manteve recomendação neutra para a Braskem, mas elevou o preço-alvo das ações de R$ 10 para R$ 10,50 para os próximos 12 meses, citando a melhora das margens petroquímicas globais após as interrupções de oferta provocadas pelo conflito no Oriente Médio.

A revisão foi motivada principalmente pela elevação das premissas para os chamados spreads petroquímicos – a diferença entre o preço de venda de um produto petroquímico e o custo de suas matérias-primas. O UBS afirmou que os spreads do setor reagiram, após as restrições de fornecimento de matérias-primas no Oriente Médio afetarem parte da capacidade produtiva na Ásia e na Europa. Nos últimos dias, porém, Estados Unidos e Irã avançaram em negociações para tentar encerrar o conflito. Na quarta-feira (24), o petróleo tombou após o presidente Donald Trump afirmar que o Irã informou a Washington que não está cobrando pedágios de embarcações no Estreito de Ormuz.

Com a redução do risco relacionado ao conflito, analistas explicam que parte do movimento positivo para os spreads petroquímicos começou a ser devolvido. Isso significa que a Braskem pode conviver novamente com um cenário de preços pressionados. “O ambiente volta a ficar desafiador para o setor e para a própria empresa”, alerta Bresciani, do Andbank.