Os recentes ataques do presidente Jair Bolsonaro ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), estão fragilizando a imagem de moderação que o chefe do Executivo tentava construir, avaliam analistas políticos ouvidos pelo Valor. As críticas, que se intensificaram nas últimas semanas, ocorrem em meio a um cenário de crescente tensão entre os Poderes e podem ter impacto na base de apoio do governo.
Contexto dos ataques
Bolsonaro tem direcionado a Moraes acusações de parcialidade e abuso de autoridade, especialmente após decisões do ministro que atingiram aliados do presidente. Em discursos e publicações nas redes sociais, o presidente classificou Moraes como "um dos maiores canalhas do Brasil" e afirmou que o ministro age com "motivação política".
Para o cientista político Carlos Melo, do Insper, a postura agressiva de Bolsonaro contradiz o discurso de pacificação que ele vinha ensaiando. "O presidente tentou se aproximar do centro, mas os ataques a Moraes mostram que ele não consegue conter sua base radical. Isso afasta setores moderados da sociedade", afirmou Melo.
Reações no STF e no Congresso
No STF, os ataques geraram mal-estar. Ministros próximos a Moraes manifestaram solidariedade, e o presidente da Corte, Luiz Fux, emitiu nota defendendo a independência do Judiciário. No Congresso, líderes partidários criticaram a escalada verbal. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) disse que "o presidente está testando os limites da democracia".
Uma pesquisa do Datafolha realizada em junho mostrou que 45% dos brasileiros consideram Bolsonaro responsável pelo aumento da tensão entre os Poderes, contra 32% que atribuem a culpa ao STF. O levantamento ouviu 2.000 pessoas em 130 municípios.
Impacto na imagem internacional
Analistas apontam que a crise também prejudica a imagem do Brasil no exterior. O embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, expressou preocupação com os ataques a instituições democráticas. "A democracia brasileira é forte, mas precisa ser cuidada", disse Chapman em evento em Brasília.
A economista Elena Landau, ex-diretora do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), avalia que a instabilidade política pode afastar investimentos. "Investidores estrangeiros observam o respeito às instituições. Esse tipo de conflito gera incerteza e prejudica a recuperação econômica", afirmou.
Estratégia de Bolsonaro
Para o cientista político Antônio Lavareda, a ofensiva contra Moraes atende a uma estratégia de mobilização da base eleitoral. "Bolsonaro sabe que sua força está no eleitorado mais radical. Ao atacar o STF, ele reafirma seu papel de anti-establishment", disse Lavareda. No entanto, ele alerta que a tática pode ter custos eleitorais. "O presidente precisa do voto do centro para vencer em 2022. Se continuar nessa linha, pode perder esse eleitorado."
Até o momento, Bolsonaro não sinalizou recuo. Em live na quinta-feira, ele voltou a criticar Moraes e disse que "não vai se calar diante de injustiças". A expectativa é que o embate continue nos próximos dias, com novos capítulos na guerra entre Executivo e Judiciário.



