Aos 80 anos, Lula enfrenta dilema de idade para reeleição
Aos 80, Lula enfrenta dilema de idade para reeleição

O Brasil, como a vasta maioria das nações, exige idade mínima de 35 anos para candidatos à Presidência, mas a Constituição não impõe limite máximo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato do PT, está com 80 anos e, se eleito, completará o quarto mandato com 85, superando Michel Temer, que terminou o mandato em 2018 com 77 anos. Lula é considerado por muitos, inclusive fora de seu campo político, o mais importante líder da história republicana do Brasil, com a possível exceção de Getúlio Vargas.

O dilema da idade e do declínio cognitivo

A decisão de concorrer é difícil, e Lula deve refletir sobre seu momento histórico e pessoal por duas razões incontornáveis, na visão de um analista de 73 anos. A primeira é que o inevitável declínio cognitivo, ao menos como probabilidade estatística, pode afetar seu desempenho como presidente. A segunda, e mais importante, é o impacto de uma possível derrota nas urnas em outubro.

A história oferece exemplos de líderes afetados pela idade e pelo declínio mental. Paul von Hindenburg, eleito presidente da Alemanha aos 78 anos, presidiu os últimos anos da República de Weimar; seu declínio cognitivo foi apontado como fator que contribuiu para a ascensão de Adolf Hitler. Na União Soviética, líderes como Lenin (53 anos), Stalin (75), Brezhnev (75), Andropov (70) e Chernenko (73) morreram no cargo, sem estabelecer sucessão clara, gerando incerteza e paralisia administrativa.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Exemplos históricos de líderes debilitados

Winston Churchill sofreu um AVC em junho de 1953, aos 78 anos, durante um jantar em Downing Street, resultando em paralisia facial parcial; recuperou-se para completar mais dois anos de governo. Woodrow Wilson, presidente americano e arquiteto da Liga das Nações, sofreu um AVC devastador na Casa Branca em 1919, aos 62 anos, concluindo o mandato praticamente acamado nos últimos 15 meses. Franklin Delano Roosevelt, que liderou a recuperação econômica e a vitória na Segunda Guerra, ficou debilitado no quarto mandato, com hipertensão e insuficiência cardíaca, morrendo de derrame cerebral em abril de 1945, aos 63 anos.

Eventuais dificuldades físicas ou mentais de Lula poderiam ser remediadas pela substituição, mas o vice-presidente Geraldo Alckmin tem 73 anos, também idade avançada. A idade da chapa não contribui para ampliar a competitividade eleitoral. As consequências da eleição deste ano são dramáticas para o futuro do Brasil e, pela instabilidade geopolítica mundial, terão repercussões internacionais como poucas vezes ocorreu.

Comparação com Biden e riscos eleitorais

Lula se depara com situação semelhante à de Joe Biden em 2024, não pela aparência física, mas pela inexorabilidade da idade. Embora seu governo tenha apresentado resultados razoáveis – desemprego nos menores níveis em anos e crescimento acima das expectativas –, a rejeição do eleitorado, segundo várias pesquisas recentes, permanece acima de 50%. Políticas como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida já não produzem o mesmo impacto político de duas décadas atrás, pois foram assimiladas como direitos adquiridos. A população sente insegurança e percebe que sua vida não melhora consistentemente.

Assim como Biden facilitou o retorno de Trump, Lula pode abrir caminho para o retorno de um regime de extrema direita, consolidando a linhagem política da família Bolsonaro, um clã extremista que gerou instabilidade, mortes desnecessárias e desmoralização internacional do Brasil. A dimensão do risco está ilustrada pela condenação a 27 anos de prisão do ex-presidente pela tentativa grosseira de golpe de Estado, episódio que aproximou o Brasil de uma republiqueta de banana, incompatível com sua dimensão histórica e geopolítica.

Seja pela reflexão sobre a idade, seja pelo interesse republicano, Lula deve considerar se seu papel mais importante está no front eleitoral ou na condução de uma ampla coalizão democrática capaz de evitar ao Brasil seu pior destino.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar