Vi no Instagram um texto publicado por meu amigo JB Carvalho (@jbcarvalho) que serviu de ponto de partida para estas reflexões. O tema por ele levantado toca num ponto alto da tradição bíblica, especialmente da tradição judaica: a diferença entre alegrar-se com a justiça e alegrar-se com a ruína do inimigo.
Uma distinção moral decisiva
À primeira vista, pode parecer uma distinção pequena. Não é. Trata-se de uma diferença moral decisiva e, até mesmo, civilizacional. Em tempos como os nossos, nos quais a vida pública é cada vez mais atravessada pela polarização, essa distinção se torna ainda mais relevante. Já não basta que a verdade prevaleça; muitos parecem precisar assistir à queda do outro. Já não basta que a justiça se imponha; deseja-se também a humilhação do adversário, sua exposição, sua derrota completa. E quando uma sociedade começa a sentir prazer nisso, algo muito profundo já se deteriorou em sua alma coletiva.
A sabedoria da tradição judaica
É justamente nesse ponto que a tradição judaica revela uma sabedoria admirável. Ao tratar de Purim, narrado a partir do livro de Ester, o centro da alegria não precisa ser lido como satisfação diante da morte de Hamã, mas como gratidão porque o mal foi contido, a ameaça foi vencida e a vida do povo foi preservada. O eixo da celebração, portanto, não está na desgraça do perverso como espetáculo, mas na libertação da comunidade, na preservação da vida, na continuidade do povo e na restauração da ordem.
Essa diferença muda tudo porque desloca o coração da comunidade da vingança para a responsabilidade. A alegria deixa de ser um reflexo da rivalidade e passa a ser uma resposta moralmente ordenada à vitória da justiça. Em vez de nutrir ressentimento, a comunidade aprende a cultivar gratidão. Em vez de se embriagar com a queda do inimigo, ela se concentra no florescimento da vida e no restabelecimento da ordem. A meu ver, esse é um dos grandes legados da tradição judaica para a formação de um tecido social saudável.
A qualidade moral dos afetos públicos
Uma sociedade não se sustenta apenas por normas, instituições e mecanismos de contenção. Ela também depende da qualidade moral dos seus afetos. Depende daquilo que aprende a celebrar, daquilo que a comove e daquilo que ela considera digno de alegria. Eis aqui uma lição profunda: uma comunidade moralmente sadia não é aquela incapaz de enfrentar o mal, mas aquela que, ao enfrentá-lo, não transforma a destruição do outro em fonte de prazer. Ou seja, o mal deve ser nomeado, o injusto deve ser contido e o povo deve ser protegido. Mas tudo isso precisa ocorrer sem que o coração da comunidade se deforme e esqueça a razão pela qual o mal está sendo combatido. Há nisso uma verdadeira pedagogia moral da vida comum, uma disciplina dos afetos públicos, um freio interior que impede que a justiça se converta em crueldade.
Contribuição para o bem comum
Essa talvez seja uma de suas maiores contribuições para a construção do bem comum. Porque o bem comum não é apenas uma sociedade funcional, nem apenas uma ordem que consegue reprimir a violência. O bem comum exige algo mais alto: uma comunidade capaz de proteger a vida, restaurar a ordem e, ao mesmo tempo, recusar a tentação de fazer da humilhação do outro um alimento para a própria alma. Numa comunidade orientada ao bem comum, não floresce apenas a cidade como abstração; florescem também as pessoas concretas que a compõem.
Urgência em tempos de polarização
É precisamente por isso que esse tema se mostra tão urgente em tempos de polarização. Quando a vida pública passa a ser capturada por um espírito de revanche, o que se celebra deixa de ser a justiça e passa a ser a derrota do oponente. A verdade perde centralidade e o bem comum se esvazia. A ordem moral é substituída por uma lógica de torcida, em que importa menos o que é justo e mais o fracasso do outro lado. E esse é um veneno social dos mais perigosos, porque uma comunidade que se habitua a encontrar prazer na ruína alheia talvez ainda conserve o vocabulário da justiça, mas já começou a perder sua substância moral.
A tradição judaica recorda que há uma diferença profunda entre agradecer pelo triunfo da justiça e deleitar-se com a queda do inimigo. A primeira postura fortalece o tecido social enquanto a segunda o corrói. A primeira forma comunidades capazes de resistir ao mal sem se tornar semelhantes a ele, enquanto a segunda produz sociedades emocionalmente intoxicadas, mesmo quando convencidas de sua própria retidão.
Saúde moral de um povo
No fundo, o que está em jogo aqui é a saúde moral de um povo. Uma nação começa a declinar não apenas quando suas instituições falham, mas também quando seus afetos se corrompem. Quando um povo passa a comemorar mais a queda do inimigo do que a vitória da justiça, ele já não está apenas em conflito com o outro; está em processo de decomposição de si mesmo.
A tradição judaica compreendeu isso com grande profundidade. O verdadeiro triunfo não está em ver o inimigo cair, mas em ver a vida ser preservada, a ordem ser restaurada e a justiça ser afirmada sem que o coração humano se torne cruel. Trata-se de uma lição antiga, mas de urgência absoluta para o Brasil de hoje.



