Datafolha: 68% dos eleitores não sabem nome de deputado federal
68% dos eleitores não sabem nome de deputado federal

Uma pesquisa Datafolha divulgada recentemente expõe um quadro alarmante para a democracia brasileira: 68% dos eleitores não conseguem citar o nome de um único deputado federal em exercício, e 75% não se lembram de nenhum senador. Quase 70% dos entrevistados também não recordam em quem votaram para cargos do Poder Legislativo federal nas eleições de 2022.

Distanciamento entre representantes e representados

Esses números estarrecedores sugerem que a sociedade brasileira não parece interessada em exercer o controle de sua própria representação política. A questão é saber por que razão isso acontece. Não há uma resposta única para um problema tão complexo. É fato que a política institucionalizada nos Poderes republicanos, que nunca foi lá muito popular, desperta cada vez menos interesse dos cidadãos comuns, sobretudo porque os partidos e os políticos parecem habitar um planeta distante, descolado da realidade brasileira.

Os tratos e acordos feitos nos corredores do Congresso ou nos gabinetes dos ministros e governantes, não raro à sorrelfa, parecem visar somente o atendimento de interesses privados de quem detém o poder por meio de mandato eletivo. A impressão que se tem – pouco importa se justa ou não – é de que a maioria dos políticos só se sente vinculada aos cidadãos de dois em dois anos, isto é, quando há eleições. No resto do tempo, entregam-se a uma disputa renhida entre si por espaços de poder e pela repartição mais vantajosa dos escassos recursos públicos.

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Falta de debate e protagonismo das lideranças

Esse confronto poderia ter algo de virtuoso se fosse orientado pelo interesse público, resultado de debates parlamentares que são a essência da política. Hoje, contudo, não se debate mais nada – e tudo parece vir decidido pelas lideranças do Congresso antes de chegar ao plenário, após articulações em reuniões fechadas. Salvo algumas exceções, os parlamentares comparecem ao plenário com cada vez menos frequência, votam conforme a orientação de líderes ou de interesses pontuais e usam o tempo de fala não para formular ideias capazes de mobilizar o eleitorado, mas para produzir os chamados “cortes” para as mídias sociais.

Os cidadãos são deixados de fora de praticamente todas as etapas da atividade legislativa. Como consequência óbvia disso, os eleitores não se sentem parte desse processo que deveria traduzir a democracia. Quando muito, interessam-se somente pelos personagens histriônicos que não raro chamam a atenção pela virulência ou pela imoralidade, e não pelas propostas políticas.

Demagogos e a negação da política

O Datafolha mostrou que apenas meia dúzia de deputados, entre 513, foram citados por ao menos 1% dos entrevistados – e, mesmo assim, em geral por sua capacidade de “engajamento” no ambiente digital. Alguns desses políticos são lembrados e ganham votos não em razão de suas ideias ou propostas, mas porque não mostram o menor respeito pelas instituições – e, ao fazê-lo, dizem em voz alta o que a massa apenas murmura. Esses demagogos investem na cizânia e interditam o diálogo, reduzindo questões complexas a palavras de ordem que excitam em vez de esclarecer. Isso é a negação da política.

Restaurar a conexão entre política e povo

Apesar de tudo, queremos crer que ainda há políticos interessados em restaurar a conexão entre a política e o povo. É a esses senhores e a essas senhoras que este jornal, fundado na convicção de que a democracia não sobrevive sem o livre confronto de ideias, concita a trabalhar urgentemente pelo restabelecimento da autêntica representação política. Não é tarefa fácil, considerando-se que tudo hoje parece conspirar para aprofundar o fosso entre as instituições democráticas e os cidadãos, desde a ausência deliberada de discussões públicas sobre matérias relevantes até a apropriação irresponsável do Orçamento. Mas é preciso ter consciência de que o poder, quando exercido com menosprezo pelas necessidades reais da sociedade, pode até dar ganhos de curto prazo para seus operadores, mas não dura.

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