Negociações EUA-Irã na Suíça são canceladas
Negociações EUA-Irã na Suíça são canceladas

Negociações EUA-Irã na Suíça são canceladas

As negociações que estavam previstas para esta sexta-feira (19) entre os Estados Unidos e o Irã na Suíça não acontecerão, segundo um comunicado do Ministério das Relações Exteriores suíço. O encontro serviria para iniciar conversas sobre a implementação do acordo firmado entre Teerã e Washington para encerrar a guerra.

O anúncio veio depois que um porta-voz da Casa Branca disse, durante a noite de quinta (18), que o vice-presidente dos EUA, JD Vance, havia desistido de uma viagem planejada para se encontrar com negociadores iranianos na Suíça. O encontro estava previsto para ocorrer no resort de montanha de Burgenstock.

Pontos principais do acordo

Após a assinatura de um acordo inicial pelos presidentes de EUA e Irã na última quarta-feira (17), as duas partes têm um prazo de 60 dias para discutir as questões ainda em aberto para encerrar de forma definitiva a guerra. A tarefa não é simples, porém. As duas partes parecem inflexíveis em algumas das questões cuja resolução foi adiada, como o acordo nuclear e a solução para o front no Líbano, ocupado militarmente por Israel.

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O documento tem 14 pontos e foi divulgado pelos EUA. O "memorando de entendimento" inclui garantias de que Teerã nunca terá armas nucleares, a suspensão de sanções norte-americanas contra o país e uma compensação financeira ao governo iraniano. O texto estabelece um prazo de 60 dias em regime de cessar-fogo para a discussão dos detalhes do acordo final — se as partes não chegarem a um acordo, o prazo se estende por mais 60 dias.

Veja os pontos mais delicados ainda em discussão

Líbano

Uma das condições que o Irã colocou para assinar o acordo inicial foi a de um cessar-fogo pleno, que incluísse também o Líbano. Forças de Israel, aliado dos EUA, atacam o Líbano desde março, sob a justificativa de combater o Hezbollah, grupo extremista aliado do regime de Teerã. Em sua campanha, porém, Israel é acusado de alvejar civis, incluindo jornalistas e paramédicos, protegidos pelo direito internacional em zonas de conflito, além de destruir intencionalmente infraestrutura civil, como reservatórios de água e pontes. Mais de 1 milhão de libaneses deixaram suas casas, provocando uma crise de deslocados internos no país. Israel não assinou o acordo de paz e disse que vai manter suas tropas estacionadas indefinidamente numa zona de cerca de 10 km ao sul do território do país vizinho.

Na quinta-feira (18), o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, criticou o que chamou de "pânico estranho" e "chilique" de Israel ao acordo firmado entre Washington e Teerã. A troca de farpas indica uma relação estremecida entre os governos dos dois países, tradicionalmente aliados. Não se sabe se os EUA vão conseguir frear o ímpeto de Israel em atacar alvos libaneses, inclusive na capital, Beirute, nem como o Irã vai reagir, se a situação se deteriorar.

Estreito de Ormuz

Um dos poucos consensos já pacificados entre EUA e Irã é a abertura do Estreito de Ormuz para a passagem de navios. O local é um importante ponto de escoamento de petróleo e gás para o comércio internacional, e seu fechamento por um período prolongado poderia gerar um efeito-cascata em produtos no mundo inteiro. Essa abertura passa a valer imediatamente a assinatura do documento, com Teerã se comprometendo a restabelecer plenamente o tráfego em 30 dias. Isso porque o local ainda está repleto de minas navais colocadas durante o conflito. O acordo desta semana também garante passagem gratuita de navios comerciais pelo estreito, mas só por 60 dias. Ao longo da guerra, o Irã, que administra a passagem juntamente com Omã, disse que passaria a cobrar um pedágio de todos os navios petroleiros que cruzassem o estreito para a reconstrução de sua infraestrutura devido aos danos provocados pelos ataques de EUA e Israel. Os EUA, por sua vez, defendem manter o fluxo por Ormuz gratuito. O tema será tratado como uma queda de braço na mesa de negociação.

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Programa nuclear iraniano

Talvez o tema mais delicado ainda em aberto, o Irã só aceita abrir mão de seu programa nuclear — o qual Teerã afirma ter fins pacíficos — com garantias sólidas de segurança e o fim das sanções comerciais que castigam sua economia há décadas. Nos próximos 60 dias, os negociadores deverão discutir qual o patamar de enriquecimento de urânio ao qual o país terá direito e como se dará a retirada do material nuclear que o Irã já tem em estoque. Atualmente, estima-se que as reservas de urânio do Irã estejam na casa de 11 toneladas, dos quais 441 kg estão enriquecidos a 60% (mais do que o necessário para fins energéticos ou de pesquisa, mas menos do que é preciso para se fabricar uma bomba). No memorando, o Irã reafirma que não vai adquirir nem desenvolver armas nucleares, enquanto os EUA concordam em resolver a questão do estoque de urânio enriquecido iraniano por meio de um mecanismo a ser definido de comum acordo.

Os negociadores dos EUA tentarão um acordo mais rigoroso do que o assinado pelo Irã com o governo Obama em 2015, criticado por Trump e do qual o republicano se retirou unilateralmente poucos anos depois. A tarefa não é fácil, porém, já que analistas apontam que os iranianos saem da guerra com mais poder de barganha ao mostrar que o regime dos aiatolás é mais resistente do que se pensava e que Teerã é capaz de manter o Estreito de Ormuz fechado mesmo sob intensa pressão militar.