A Santa Sé declarou nesta quinta-feira (2) que a Fraternidade São Pio X (SSPX), grupo católico ultraconservador, está oficialmente em cisma com a Igreja Católica. A decisão foi anunciada um dia após a fraternidade ordenar quatro bispos sem autorização do Vaticano, em uma cerimônia realizada em Écône, na Suíça, considerada pelo Vaticano um "ato cismático".
Excomunhão e invalidação de sacramentos
O Vaticano anunciou a excomunhão dos bispos ligados à SSPX, declarou inválidos os sacramentos celebrados por eles e orientou os fiéis a não aderirem ao grupo. A Santa Sé advertiu que a fraternidade agora celebra sacramentos de forma ilícita, não podendo oficiar casamentos nem ouvir confissões com validade perante a Igreja Católica. Padres e fiéis leigos que aderirem ao grupo dissidente passam a ser considerados em situação de cisma e excomungados.
Desafio ao papa
Antes da ordenação, o papa Leão XIV fez um último apelo ao superior da SSPX, padre Davide Pagliarani, para que desistisse da cerimônia. Em carta divulgada pelo Vaticano, o pontífice pediu que o grupo "renunciasse ao projeto" e alertou para as consequências. Foram consagrados quatro novos bispos — dois franceses, um norte-americano e um suíço — diante de milhares de fiéis reunidos na sede da fraternidade.
Rejeição às reformas do Concílio Vaticano II
A SSPX reúne católicos tradicionalistas que defendem a reversão de mudanças promovidas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). Entre as principais bandeiras estão o retorno das missas em latim, celebrações com o padre voltado para o altar (de costas para os fiéis) e a rejeição de parte das reformas litúrgicas e pastorais. O concílio marcou uma das maiores reformas da Igreja, com missas passando a ser celebradas na língua local e padres voltados para os fiéis, além do diálogo com outras religiões.
Histórico de conflitos
O confronto entre a SSPX e o Vaticano não é novo. Em 1988, o fundador da comunidade, bispo Marcel Lefebvre, também ordenou quatro bispos sem autorização do papa João Paulo II, levando à excomunhão dos envolvidos. A punição foi suspensa em 2009 pelo papa Bento XVI em uma tentativa de reaproximação, mas a situação canônica da fraternidade permaneceu irregular. Agora, com a nova ordenação, o grupo reabre um impasse que atravessa seis pontificados e coloca Leão XIV diante de uma das primeiras grandes crises de seu governo.



