Ventos Fortes em SP e RJ: Sinal do El Niño no Inverno
Ventos Fortes em SP e RJ: Sinal do El Niño

Os fortes ventos que atingiram São Paulo e Rio de Janeiro na última semana foram a ponta de um sistema de tempestades que já havia causado estragos no Rio Grande do Sul. Esse fenômeno, conhecido como frente de rajada, é raro no inverno e pode ser um sinal direto da influência do El Niño no clima da América do Sul.

O que é uma frente de rajada?

A frente de rajada é a dianteira de uma linha de instabilidade, que por sua vez se desprende de um sistema maior, como a frente fria estacionária que trouxe chuvas intensas ao Rio Grande do Sul. Enquanto as nuvens de tempestade se alinham lado a lado, a frente de rajada avança mais rápido, como um vendaval turbinado. Segundo Marcelo Seluchi, coordenador de operação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), essa estrutura é comparável ao dedo do longo braço do El Niño.

— O El Niño está associado à frente fria estacionária que gerou as fortes chuvas no Rio Grande do Sul — afirma Seluchi.

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Números do impacto

No interior de São Paulo, as rajadas atingiram 124,9 km/h, superando a velocidade mínima de um furacão (119 km/h). No Rio de Janeiro, o vento chegou a 81 km/h. Apesar da intensidade, os ventos não foram contínuos, mas sim pulsos violentos, o que evitou danos ainda maiores. As cidades fluminenses registraram duas mortes e cerca de 500 mil imóveis permanecem sem energia elétrica.

O papel do El Niño

O El Niño, caracterizado pelo aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial, altera os padrões de vento em todo o planeta. A água mais quente evapora, aquece a atmosfera e modifica os jatos de vento nos altos níveis. Na América do Sul, isso aumenta a diferença de temperatura entre o equador e o polo, gerando ventos mais poderosos. Prova disso foi a simultaneidade de chuvas torrenciais no Rio Grande do Sul, nevascas nos Andes e tempestades no Chile — todos fenômenos acoplados, típicos do El Niño.

— Se já está chovendo tanto em julho, um mês seco, o que vai acontecer na primavera, quando o El Niño ficará mais intenso? Não sabemos, mas não parece estar começando bem — alerta Seluchi.

Dificuldade de previsão

As frentes de rajada são difíceis de prever porque nenhum modelo meteorológico as reproduz com precisão. Embora houvesse previsão de vento forte, a intensidade e os locais exatos não puderam ser antecipados. Seluchi compara as frentes de rajada a detalhes de uma situação maior, como a frente fria. Além disso, sua formação no inverno é incomum devido à falta de umidade, mas, quando ocorrem, tendem a ser mais violentas.

O professor de meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Wallace Menezes, explica que as tempestades já estão perdendo força no Sudeste e não há previsão de chuva significativa nos próximos dias. O tempo deve voltar a abrir no fim de semana, mas os cientistas descartam que o fenômeno se torne mais frequente por ora.

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