Novo El Niño se aproxima: alerta de mais chuvas no Sul e seca no Norte e Nordeste
Novo El Niño: mais chuvas no Sul e seca no Norte

Um novo episódio de El Niño já dá sinais no Oceano Pacífico e pode trazer consequências significativas para o Brasil, com aumento de chuvas na região Sul e seca no Norte e Nordeste. Ainda há incertezas sobre a intensidade do fenômeno, enquanto o país enfrenta desafios de preparo e adaptação a eventos climáticos extremos.

Monitoramento e previsões

Satélites, radares e boias no Oceano Pacífico acompanham uma massa de água mais quente que se desloca em direção à costa da América do Sul. Os dados indicam um padrão já conhecido: mais um El Niño está em formação. A principal dúvida agora é sobre sua força. Tércio Ambrizzi, professor de ciências atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), explica que o termo 'super El Niño' não é adequado, e a tendência é de um evento moderado a forte, havendo consenso na comunidade científica.

O fenômeno é identificado quando a temperatura da superfície do Pacífico equatorial fica cerca de 0,5 °C acima do normal por pelo menos três meses. Desde fevereiro, as medições já apontam essa elevação. Os cientistas aguardam a confirmação de onde ocorrerá o maior aquecimento, fator decisivo para os impactos no Brasil.

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José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), afirma que os primeiros sinais devem aparecer no Sul durante a primavera, com mais chuvas. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta 90% de probabilidade de ocorrência do El Niño este ano, podendo ser forte e agravar secas, chuvas intensas e ondas de calor.

Impactos e preparação

O possível El Niño forte tem gerado debates no Congresso Nacional sobre seus efeitos na população, economia e agronegócio. A próxima safra de grãos, estimada em 356 milhões de toneladas, pode ser afetada. A Defesa Civil da União informou que acompanha diariamente as condições climáticas, mas ainda não há prognóstico preciso sobre os impactos.

Se confirmado, espera-se agravamento da seca no Norte, especialmente na Amazônia, e no Nordeste, favorecendo queimadas e prejudicando a produção agrícola. No Sul, as chuvas devem aumentar. Ambrizzi ressalta que cada El Niño tem sua própria impressão digital e nunca é igual ao outro. O episódio mais recente, entre 2023 e 2024, foi um dos cinco mais intensos, contribuindo para temperaturas globais recordes.

A memória da destruição no Rio Grande do Sul em 2024, com a pior inundação da história do estado, ainda está fresca. Marengo destaca que, mesmo que o El Niño não seja intenso, a atmosfera já está mais quente devido ao aquecimento global, o que já deveria provocar mudanças sistemáticas.

Desafios nas comunidades vulneráveis

Nas periferias, falta investimento público para adaptação a chuvas e secas extremas. Thaynah Gutierrez, secretária executiva da Rede por Adaptação Antirracista, cita as periferias de Porto Alegre, que sofreram com os eventos de 2024, e afirma que quase nada está pronto para adaptar as comunidades. Especialistas em gestão de riscos defendem que a preparação deve ser contínua, independentemente de fenômenos específicos.

Victor Marchezini, sociólogo do Cemaden, sugere que o foco deve estar na resiliência das cidades, infraestrutura e sistemas produtivos. A comunicação de risco também é um desafio, com excesso de informações nas redes sociais gerando dúvidas. Gutierrez aponta que falta conhecimento situado dos territórios mais vulneráveis por parte dos governos.

A responsabilidade de cobrar investimentos e prestar contas deve envolver todas as esferas de governo. Santa Catarina, por exemplo, decretou estado de alerta climático até novembro, mas os investimentos em prevenção de desastres foram reduzidos: apenas 15,4% dos recursos da Defesa Civil foram executados em 2025, e apenas 0,66% para barragens. Gutierrez critica o uso de recursos em ano eleitoral, pedindo que a população não eleja políticos que desviem verbas da adaptação.

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