Mudança climática deixou incêndios na Espanha 20 vezes mais prováveis
Mudança climática: incêndios na Espanha 20x mais prováveis

Uma análise da World Weather Attribution (WWA), rede internacional de cientistas que estuda a relação entre mudanças climáticas e eventos extremos, concluiu que as condições meteorológicas que alimentaram os grandes incêndios florestais de julho na Espanha ficaram ao menos 20 vezes mais prováveis por causa do aquecimento global de origem humana. No sudoeste da França, a influência da mudança climática ao menos dobrou a probabilidade de cenário semelhante.

Os incêndios, que chegaram a consumir até 25 mil hectares na região central da Espanha, se aproximaram de bairros residenciais e de destinos turísticos. Em El Tiemblo, a 80 km a oeste de Madri, integrantes da Unidade Militar de Emergências (UME) e bombeiros de Castela e Leão trabalharam para conter as chamas próximas ao bairro La Atalaya. Na França, imagens de satélite flagraram a fumaça sobre Andernos-les-Bains, em Gironde.

A rede não investigou a origem de cada fogo. Os pesquisadores avaliaram como a combinação de temperaturas elevadas, falta de chuva e ventos fortes criou um ambiente favorável para que o incêndio se espalhasse rapidamente e se tornasse difícil de controlar. Foram analisados os sete dias com as condições mais graves em cada região, usando um indicador que reúne calor, umidade, vento e o ressecamento da vegetação.

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Impacto da mudança climática

No clima atual, condições com essa intensidade são esperadas, em média, uma vez a cada seis anos no centro da Espanha e uma vez a cada 20 anos no sudoeste francês. Em comparação com um planeta cerca de 1,4°C mais frio, a intensidade desse conjunto de fatores aumentou aproximadamente 42% na Espanha e 46% na França. “Condições meteorológicas severas para incêndios já não são raras no clima atual”, disseram os autores no estudo.

Sequência de extremos

Um dos pontos centrais da análise é a sequência de extremos registrada desde o início do ano. A Espanha teve o janeiro mais chuvoso dos últimos 25 anos, o que favoreceu o crescimento da vegetação. Depois, uma primavera seca e um verão marcado por ondas de calor retiraram a umidade do solo e ressecaram plantas, gramíneas e arbustos. Na França, sucessivas ondas de calor e escassez de chuva também reduziram a umidade do solo e aumentaram o estresse sobre pinheiros e arbustos.

María José Sanz, diretora do Centro Basco de Mudança Climática, afirmou em comentário divulgado pelo Science Media Centre España que os episódios foram favorecidos tanto pelas condições climáticas quanto pela forma como as áreas florestais são administradas. Segundo ela, o abandono de terras rurais contribuiu para o acúmulo de vegetação. “Esses incêndios vão passar a fazer parte da nossa realidade”, disse Sanz.

Riscos à saúde e limitações

A fumaça também representa um risco para a saúde. De acordo com a pesquisadora, os incêndios liberam poluentes, especialmente partículas finas, e podem obrigar milhares de pessoas a permanecer em casa por causa da piora na qualidade do ar. Outros especialistas ouvidos pelo Science Media Centre España ressaltaram, porém, que o levantamento avalia principalmente as condições meteorológicas.

O tamanho e a gravidade de um incêndio também dependem do relevo, da quantidade e da distribuição da vegetação, da origem do fogo, da ocupação humana e da rapidez da resposta das equipes de emergência. Eduardo Rojas Briales, professor da Universidade Politécnica de Valência, disse que uma das limitações do trabalho é “restringir-se às análises meteorológicas sem considerar as condições concretas do incêndio, da área atingida e da operação de combate”. Já Víctor Riera, da Fundação Pau Costa, avaliou que o estudo usou métodos consolidados e funciona como um alerta. “O artigo é, acima de tudo, um chamado de atenção”, afirmou Riera.

Medidas necessárias

A conclusão dos pesquisadores é que combater as chamas continuará sendo essencial, mas não será suficiente. Reduzir o risco de incêndios exigirá manejo da vegetação, planejamento de cidades e áreas rurais, diversificação das florestas, sistemas de aviso e cooperação entre países. O estudo também afirma que limitar o agravamento futuro dependerá da redução rápida do uso de combustíveis fósseis.

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