El Niño: 5 razões para se preocupar com o fenômeno
El Niño: 5 razões para se preocupar

O fenômeno El Niño, que já começou a se manifestar em 2023, promete ser um dos mais intensos das últimas décadas, com consequências potencialmente devastadoras para o clima global. Especialistas alertam que os efeitos podem ser sentidos em todo o mundo, desde secas severas até inundações catastróficas, afetando diretamente a agricultura, a economia e a saúde pública.

O que é o El Niño e por que ele é tão preocupante?

O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera os padrões de circulação atmosférica, provocando mudanças significativas no clima em diversas regiões do planeta. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), há uma probabilidade de 90% de que o El Niño continue durante o segundo semestre de 2023, com intensidade moderada a forte.

“O El Niño deste ano tem o potencial de ser um dos mais fortes já registrados, comparável aos eventos de 1997-1998 e 2015-2016”, afirmou o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, em comunicado oficial. Esses eventos anteriores causaram estragos milionários em todo o mundo, com perdas agrícolas, incêndios florestais e surtos de doenças.

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1. Impactos na agricultura e segurança alimentar

Um dos setores mais vulneráveis ao El Niño é a agricultura. As mudanças nos padrões de chuva podem levar a secas em algumas áreas e enchentes em outras, comprometendo safras inteiras. No Brasil, por exemplo, o fenômeno costuma causar estiagem no Norte e Nordeste, enquanto no Sul há excesso de chuvas. Isso afeta diretamente a produção de soja, milho, café e outros grãos essenciais para a economia do país.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra de grãos de 2023/2024 pode sofrer uma redução de até 10% devido aos efeitos do El Niño. A queda na produção pode elevar os preços dos alimentos, impactando principalmente as populações de baixa renda. “A segurança alimentar global está em risco, especialmente em países que já enfrentam insegurança alimentar”, alertou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

2. Eventos climáticos extremos

O El Niño também está associado a um aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, como furacões, ondas de calor e inundações. No Pacífico, a elevação da temperatura das águas pode intensificar a formação de ciclones tropicais. Em 2023, o furacão Otis, que atingiu o México em outubro, foi um exemplo da força que esses eventos podem ter, causando destruição generalizada.

No Brasil, as regiões Sul e Sudeste podem enfrentar tempestades severas, com granizo e ventos fortes, enquanto a Amazônia pode sofrer com secas prolongadas, aumentando o risco de incêndios florestais. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam que a Amazônia registrou em 2023 o maior número de focos de incêndio dos últimos 10 anos, em grande parte devido às condições secas associadas ao El Niño.

3. Impactos na saúde pública

As mudanças climáticas induzidas pelo El Niño também têm consequências diretas na saúde humana. O aumento da temperatura e as alterações nos padrões de chuva favorecem a proliferação de vetores de doenças, como o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya. Em 2023, o Brasil registrou um aumento de 30% nos casos de dengue em relação à média histórica, segundo o Ministério da Saúde.

Além disso, as ondas de calor podem agravar problemas respiratórios e cardiovasculares, especialmente em idosos e crianças. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que eventos de calor extremo já causam milhares de mortes prematuras anualmente, número que pode aumentar com a intensificação do El Niño.

4. Consequências econômicas globais

Os impactos do El Niño não se limitam ao clima e à saúde; eles também afetam a economia global. De acordo com um estudo publicado na revista Science, o El Niño de 1997-1998 causou perdas econômicas globais estimadas em US$ 5,7 trilhões. Eventos fortes podem reduzir o crescimento econômico de países afetados em até 2% do PIB.

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Setores como agricultura, pesca, turismo e energia são particularmente vulneráveis. A redução na produção de hidrelétricas devido à seca pode levar a aumentos nas tarifas de energia, enquanto a quebra de safras eleva os preços dos alimentos no mercado internacional. O Brasil, como grande exportador de commodities, pode sentir os efeitos tanto na balança comercial quanto na inflação doméstica.

5. Riscos para ecossistemas e biodiversidade

Os ecossistemas marinhos e terrestres também sofrem com o El Niño. O aquecimento das águas oceânicas causa o branqueamento de corais, ameaçando recifes em todo o mundo. Em 2023, a Grande Barreira de Corais, na Austrália, já apresentou sinais de estresse térmico, com previsão de que o branqueamento se intensifique nos próximos meses.

Nas florestas tropicais, como a Amazônia, a seca prolongada aumenta a mortalidade de árvores e a emissão de carbono, contribuindo para o aquecimento global. Um estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) mostrou que a floresta amazônica pode deixar de absorver carbono e se tornar uma fonte líquida de emissões se eventos de seca como os do El Niño se tornarem mais frequentes.

Diante desse cenário, cientistas e governos reforçam a necessidade de medidas de adaptação e mitigação. Sistemas de alerta precoce, planejamento agrícola e investimentos em infraestrutura resiliente são algumas das ações recomendadas para minimizar os danos. “O El Niño é um lembrete de que estamos em um planeta interconectado e que as mudanças climáticas amplificam seus efeitos”, concluiu Taalas.