Funeral de Ali Khamenei reúne até 20 milhões de pessoas no Irã
Funeral de Ali Khamenei reúne até 20 milhões no Irã

O Irã deu início neste sábado (4) às cerimônias públicas do funeral de sete dias do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país morto em um ataque conjunto de Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro de 2026. As celebrações fúnebres devem atrair até 20 milhões de pessoas, segundo estimativas oficiais. Khamenei foi sucedido por seu filho, Mojtaba Khamenei, que assumiu o posto em março.

Cerimônia reservada antecede eventos públicos

Na sexta-feira (3), uma cerimônia reservada reuniu a cúpula do governo iraniano, membros das forças armadas e delegações de países como Rússia e China. O funeral prosseguirá com uma série de eventos até a próxima quinta-feira (9).

Quem foi Ali Khamenei?

Líder supremo do Irã por quase quatro décadas, Khamenei comandou o país com mão de ferro. Durante seu governo, nunca aceitou fazer reformas na república islâmica e reprimiu com força a oposição. No cenário internacional, manteve posição hostil aos Estados Unidos e se negava a aceitar a existência do Estado de Israel.

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Quando se tornou líder supremo, sua escolha foi considerada uma surpresa, pois nem todos o julgavam qualificado para suceder Ruhollah Khomeini, fundador e líder histórico da república islâmica. Khamenei havia sido vice-ministro da defesa e presidente durante a guerra com o Iraque, na década de 1980, mas não era um dos líderes da revolução. Ele nem sequer tinha o título de aiatolá na época.

Origens e ascensão

Nascido em 1939 em Mashhad, cidade sagrada para os xiitas, foi o segundo de oito filhos de uma família pobre e devota. Cresceu sob a monarquia do xá Reza Pahlavi, num momento em que o Irã era aliado dos Estados Unidos e até de Israel. O Irã, país de origem persa, buscava conter o predomínio árabe no Oriente Médio. Contudo, aquela nação que respirava cultura americana e europeia também reprimia quem discordasse do governo. Não demorou para que uma ideologia antiocidental crescesse na sociedade e também dentro de Khamenei.

Quando o Irã começou a se rebelar contra a monarquia, ele se juntou aos protestos. Acabou na prisão e, em 1977, foi para o exílio, que não durou muito. A revolução islâmica do aiatolá Khomeini, em 1979, derrubou o xá e marcou uma mudança radical na política externa do país. O Irã passou a pregar a eliminação do Estado de Israel e a chamar os Estados Unidos, um antigo aliado, de “grande satã”, símbolo do imperialismo ocidental.

Carreira política e guerra contra o Iraque

A ascensão dos clérigos xiitas foi a porta de entrada para Khamenei chegar ao poder. Ele se tornou homem da confiança do líder supremo. Em 1980, passou a conduzir a oração de sexta-feira em Teerã, a mando de Khomeini. Em 1981, um ataque a bomba deixou sua mão direita paralisada. Logo depois, aos 42 anos, foi eleito presidente do Irã com 95% dos votos.

Durante a guerra contra o Iraque, entre 1980 e 1988, esteve ao lado de Khomeini. Foi nesse período que o Irã começou a financiar e armar extremistas como o Hezbollah, no Líbano, e, mais tarde, os terroristas do Hamas, na Faixa de Gaza. Era a chamada guerra por procuração, que, ao longo das décadas seguintes, provocou diferentes atentados contra cidadãos israelenses e ocidentais.

Poder absoluto como líder supremo

Desde a morte de Khomeini, em 1989, Khamenei liderou o país de 90 milhões de habitantes. Seu poder foi proporcional ao dos grandes ditadores. O Irã é uma teocracia; por isso, Khamenei acumulou as funções de líder político e religioso. Foi responsável pelas decisões estratégicas da nação, como política externa, segurança e forças armadas. Podia anular as decisões do presidente e tinha o poder de demitir qualquer membro do governo a qualquer momento, sem os votos do parlamento.

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Apresentava-se como o guardião dos valores da revolução islâmica: justiça social, independência nacional e governo islâmico. Mas, diante do seu povo, Khamenei usou a força para reprimir a dissidência. Exemplos incluem a Onda Verde de 2009, que protestou contra a reeleição do presidente conservador Ahmadinejad; em 2019, quando as periferias se revoltaram contra o aumento dos preços dos combustíveis; e em 2022, uma nova onda de protestos foi reprimida após a morte da jovem Mahsa Amini, sob custódia da polícia moral iraniana. Ela havia sido presa por não usar o véu islâmico corretamente e, segundo a família, foi espancada pelos agentes.

O gesto de retirar o hijab e cortar o cabelo em público se tornou um símbolo das manifestações. O governo reagiu com violência, prisões arbitrárias, mortes, perseguição a jornalistas e censura da internet.

Crise econômica e declínio de popularidade

Nos últimos anos, Khamenei viu a popularidade do regime cair devido à insatisfação com a economia cambaleante. A inflação disparou, o desemprego está em alta e a exportação de petróleo já não é mais a mesma, em grande parte por conta das sanções impostas pelo Ocidente em represália ao programa nuclear iraniano. A insatisfação popular aumentou após os ataques de Israel e dos EUA ao Irã em junho de 2025, que agravaram a crise econômica. No início de 2026, o governo enfrentou uma grande onda de protestos, reprimida com violência por Teerã e que deixou milhares de mortos.

Antes do ataque de 18 de fevereiro que o matou, Khamenei havia sobrevivido a um atentado em 1981 e se recuperado de um câncer em 2014. Em um país onde os veículos de imprensa são controlados pelo regime, poucas informações sobre sua rotina eram divulgadas. Diziam que ele viveu os últimos meses num bunker subterrâneo em Teerã.