A União Europeia convocou uma reunião de emergência para debater a crise migratória em Ceuta, território autônomo da Espanha no norte da África, neste sábado (1º). O pedido partiu de 22 países-membros em uma carta enviada à Irlanda, que detém a presidência rotativa do bloco. O documento solicita uma resposta coordenada, incluindo possível apoio adicional da agência de fronteiras da UE, a Frontex, e uma revisão da cooperação com Marrocos.
A carta destaca que as travessias representam um desafio à fronteira externa da UE e correm o risco de incentivar ainda mais a imigração ilegal. França, Luxemburgo e Portugal não assinaram o documento, assim como Espanha e Irlanda. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, apoiou a convocação da reunião, que reunirá ministros do Interior dos países europeus, mas criticou os governos que defenderam a exclusão da Espanha da área de livre circulação de Schengen.
Itália suspende Schengen com a Espanha
Nesta sexta-feira (31), a Itália anunciou a suspensão por um mês do Acordo de Schengen com a Espanha, impedindo a livre circulação entre os dois países. Durante esse período, pessoas que chegarem de avião ou barco do território espanhol terão de passar pela imigração ao entrar na Itália. A medida foi tomada em meio à pressão migratória sobre as fronteiras europeias.
Espanha diz que situação em Ceuta volta ao normal
A Espanha informou neste sábado (1º) que conseguiu interromper o fluxo de entrada de imigrantes em Ceuta e que a situação na cidade está quase de volta à normalidade. Segundo as autoridades espanholas, mais de 48 mil das cerca de 50 mil pessoas que entraram na cidade desde quinta-feira (30) já retornaram ao Marrocos. O número de mortes durante a grande invasão subiu para pelo menos 67.
"Quase todos eles já deixaram Ceuta. A situação se inverteu quase completamente", afirmou o ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, a jornalistas. Imagens da agência Reuters registraram alguns imigrantes sendo escoltados até a fronteira pelo Exército espanhol, enquanto soldados e policiais patrulham a praia de Tarajal, onde milhares de marroquinos chegaram a nado.
Em meio à operação de retirada, soldados espanhóis encontraram migrantes escondidos em túneis na praia de Tarajal, evidenciando a resistência de alguns em deixar a cidade.
Barreira flutuante para evitar novas chegadas
Para evitar novas chegadas pelo mar, a Guarda Civil começou a instalar uma barreira flutuante de 500 metros na costa de Ceuta. Em comunicado, a organização explicou que a barreira pneumática, juntamente com uma linha de boias navais ancoradas, foi projetada para ficar de 30 a 70 centímetros acima da água e se estender até um metro abaixo da superfície. Um canal entre as barreiras permitirá que embarcações da Guarda Civil patrulhem a área.
Migrantes relatam decepção e falta de oportunidades
Muitos dos imigrantes que atravessaram para Ceuta foram motivados por dificuldades econômicas e incentivados por boatos nas redes sociais. A Reuters conversou com dois homens que iniciavam o trajeto de retorno para casa. Eles contaram que ficaram decepcionados ao encontrar muita hostilidade e falta de oportunidades na cidade.
"Eu queria ter uma vida melhor, mas aqui só encontrei fome e miséria. Queria me juntar à minha mãe na Espanha. Tudo estava fechado, inclusive os cafés. Um cigarro custava 2 euros, uma baguete custava 3 euros. Isso é demais", lamentou Brahim Karroubi.
"Vou voltar. Não há nada para fazer aqui. Os habitantes de Ceuta nos trataram mal, estamos com fome. As lojas estão fechadas", acrescentou Mohamed, de 27 anos.
Os moradores de Ceuta, por sua vez, mostraram-se aliviados com a volta à normalidade, mas disseram que ainda se sentem inseguros após a grande invasão. Um deles afirmou que a chegada de milhares de pessoas em menos de uma hora foi "inaceitável". A garçonete Marina Castano, cujo bar reabriu neste sábado, demonstrou preocupação: "Embora as coisas tenham se acalmado um pouco, Ceuta continua sendo insegura e ainda precisamos da polícia e dos militares, porque isso é um aviso de que eles podem nos invadir quando quiserem".
Entenda a situação de Ceuta
Ceuta é uma cidade autônoma da Espanha localizada no norte da África. Junto com Melilla, é um dos únicos territórios da União Europeia que fazem fronteira terrestre com a África. A cidade fica na costa do Mar Mediterrâneo, em frente ao Estreito de Gibraltar. Apesar de pertencer à Espanha há séculos, o Marrocos reivindica a soberania sobre o território, o que gera atritos diplomáticos recorrentes.
Por fazer parte da Espanha, Ceuta também integra a União Europeia. Para muitos migrantes, entrar na cidade representa a primeira porta de acesso ao bloco europeu. A crise atual, no entanto, expôs a fragilidade das fronteiras externas da UE e reforçou o debate sobre políticas migratórias comuns, especialmente após a decisão italiana de suspender o acordo de Schengen com a Espanha.



