Rota migratória de cubanos por Roraima cresce 400% em uma semana
Rota migratória de cubanos por Roraima cresce 400%

O número de cubanos resgatados em Roraima após entrarem no Brasil por rotas operadas por coiotes cresceu em 2026. Em apenas uma semana, foram encontrados 189 migrantes em travessias pela BR-401, rodovia que liga o estado à Guiana e se tornou uma das portas de entrada para pessoas que saem da ilha caribenha e buscam chegar ao território brasileiro. Os resgates de cubanos em uma semana incluem operações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Militar e Exército. Depois de sair da Guiana, os migrantes entram no Brasil pelo município de Bonfim, ao Norte de Roraima.

Resgates superam total de 2024 e 2025 juntos

Os resgates de cubanos em uma semana superam o total de todos os migrantes encontrados em 2024 e 2025 juntos, segundo levantamento prévio da PRF, corporação responsável pela maioria dos resgates até agora. Além disso, é quatro vezes maior que o registrado em todo o ano passado. Por trás desses números, há nomes e histórias marcadas pela esperança de uma vida melhor. Uma delas é a do mecânico Thomas Joel Franco, que chegou a Roraima no dia 8 de junho. Ele foi um dos 108 cubanos encontrados pela PRF na maior operação de resgate registrada em um dia no estado.

Crise em Cuba impulsiona fuga

Thomas conta que fugiu de Cuba no fim do mês de maio porque o país enfrenta uma das piores crises da história recente. 'Há pouca comida. São 40h ou 45h sem luz. Não há água, não há gás', disse. Mas o principal motivo para ele recorrer ao Brasil foi o desemprego. O migrante chegou a Boa Vista após pagar US$ 60 - equivalente a R$ 300 saindo de Bonfim. No entanto, os suspeitos abandonaram o grupo antes da área de fiscalização, próximo à capital roraimense. O mecânico foi encontrado pelos agentes da PRF caminhando na Ponte dos Macuxis com outros migrantes no fim da tarde do dia 8 de junho. 'Estava há cinco dias sem dormir e sem comer nada. Tomava muito pouca água e comia bolacha para conseguir seguir caminhando, passando por poças d'água, rios e todo tipo de lugar. A polícia nos encontrou, nos tratou bem e nos deu água e café', explicou.

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Operações de resgate e números

No dia seguinte ao resgate dos 108 cubanos, o Exército encontrou outros 38 migrantes em travessia na Ponte dos Macuxis. Dois dias depois, a Polícia Militar e a PRF localizaram mais 43 cubanos que faziam o mesmo trajeto na madrugada. Em 2026, a PRF resgatou 225 cubanos vítimas dos coiotes em Roraima. A Polícia Federal investiga grupos criminosos que operam com a organização e facilitação da entrada irregular de migrantes no país. No dia 11 de maio, agentes cumpriram quatro mandados de busca e apreensão contra suspeitos de atuar como coiotes durante a Operação Conexão Norte.

Novo fluxo migratório em Roraima

O agente da PRF Isaías Magalhães, que acompanhou a maioria dos resgates de cubanos, avalia que Roraima vive uma nova fase migratória. Desde 2015, o estado se tornou, por Pacaraima, a principal porta de entrada de venezuelanos que fogem da crise no país. 'Estamos diante de um novo movimento migratório no país. Já vimos isso na fronteira com a Venezuela, um fluxo que continua acontecendo até hoje, e agora também observamos um novo movimento migratório na fronteira com a Guiana [por Bonfim]', resumiu.

Destino final e exploração

As forças de segurança ainda não têm todos os números consolidados sobre a entrada de cubanos no Brasil, tendo em vista que o fluxo migratório é considerado uma novidade. Os números disponíveis até agora são os registrados em operações. Boa Vista funciona apenas como ponto de passagem, e o destino final pode variar entre cidades como Curitiba e São Paulo, e até outros países, como Uruguai. Os migrantes pagam, em média, US$ 2,8 mil - o equivalente a mais de R$ 14 mil, segundo a PRF, o que torna 'uma atividade muito lucrativa' para os coiotes.

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Condições degradantes e riscos

Segundo Isaías Magalhães, os migrantes cubanos são explorados de todas formas pelos coiotes: financeiramente, são mal tratados e correm perigo de morte durante toda a jornada até Boa Vista. Quando são resgatados pela PRF, muitos estão com desnutrição, sede, doenças respiratórias e abalados psicológica e emocionalmente, 'pois já estão há semanas na estrada'. Em muitos casos, eles são deixados no meio do caminho. 'Os coiotes abandonam essas pessoas na rodovia, e elas seguem caminhando, puxando malas e mochilas, incluindo idosos, em uma situação degradante, marcada por fome, sede e problemas de saúde', afirma o agente.

Acidentes fatais na BR-401

Na maioria dos casos, os suspeitos utilizam carros alugados com capacidade para cinco pessoas, mas chegam a transportar entre dez e 12 ocupantes, de acordo com o agente. 'Quando percebem que podem ser abordados, eles fogem por estradas vicinais e de terra, colocando em risco a segurança de todos, inclusive com possibilidade de capotamento', explicou. Em dezembro de 2025, dois cubanos, de 29 e 16 anos, morreram e outros sete migrantes ficaram feridos, entre eles duas crianças, após um carro capotar na BR-401. Um ano antes, em outubro de 2024, uma cubana de 69 anos morreu e outros seis migrantes ficaram feridos, entre eles três crianças, após outro capotamento na mesma rodovia.

Pedidos de refúgio ultrapassam venezuelanos

O aumento da migração cubana tem sido percebido desde 2025. Pela primeira vez em uma década, os pedidos de refúgio feitos por cidadãos de Cuba no Brasil superaram os de venezuelanos. No ano passado, mais de 75,5 mil cubanos solicitaram refúgio no Brasil. Desse total, 36,6 mil pedidos foram registrados em Roraima. Os dados são do Painel da Migração no Brasil, do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

Análise de especialista

O professor e pesquisador de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima (UFRR), João Carlos Jarochinski, analisa que o aumento da migração cubana para o Brasil está relacionado à crise no país. 'Hoje, Cuba enfrenta apagões e dificuldades estruturais muito significativas. Esses problemas já existiam, mas se tornaram mais graves com a redução do apoio da Venezuela', explicou. O pesquisador afirma que, ao mesmo tempo em que mais cubanos tentam deixar o país, diversas nações da região passaram a adotar restrições à entrada dessa população. Diante disso, muitos buscam o que João chama de 'destinos possíveis'. 'Entre esses destinos, a Guiana se tornou uma das opções mais acessíveis para os cubanos. A partir de lá, eles encontram possibilidades de ingresso e regularização migratória no Brasil', disse.

Legislação brasileira acolhedora

Os cubanos resgatados no Brasil são considerados vítimas. O delegado da PF que atua na delegacia de Migração, Adolpho Pereira, enfatiza que a legislação brasileira não impede a entrada de migrantes de Cuba no país. 'A legislação migratória brasileira não criminaliza a imigração e possui caráter acolhedor', disse. Em todos os casos, quando um cubano é resgatado da rede de coiotes, ele é encaminhado à sede da PF em Boa Vista. Lá, passa por identificação e é multado em R$ 100 por entrada irregular no país. Em seguida, é liberado para permanecer no Brasil ou seguir viagem para outro destino. O valor precisa ser pago caso o migrante solicite algum serviço migratório futuramente, como a regularização da residência.

Procedimentos após o resgate

Os suspeitos de atuar como coiotes são autuados pelos crimes de 'promoção, por qualquer meio, com o fim de obter vantagem econômica, a entrada ilegal de estrangeiro em território nacional ou de brasileiro em país estrangeiro'. De acordo com o delegado, o ideal é que o migrante solicite um visto ainda em Cuba, por meio da representação brasileira no país ou pelos canais digitais disponibilizados pelo governo brasileiro. Com o visto concedido, ele pode entrar e circular regularmente pelo território nacional. Ao chegar ao Brasil, inicia-se o processo de pré-documentação. Os migrantes apresentam os documentos que possuem. Na maioria dos casos, eles chegam com passaporte, necessário para sair de Cuba e entrar na Guiana. Muitos também carregam certidões e outros documentos pessoais. As informações são analisadas inicialmente por organismos internacionais, responsáveis por coletar dados e registrar os motivos da solicitação de refúgio. Em seguida, os migrantes são encaminhados à PF, onde passam pela biometria, com fotografia e coleta de impressões digitais. Após essa etapa, recebem um documento provisório de solicitante de refúgio. A emissão da carteira definitiva pode demorar alguns meses, mas o documento permite solicitar CPF, carteira de trabalho, inscrição no Cadastro Único e acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS). Com isso, o migrante passa a ter acesso aos serviços básicos oferecidos pelo estado brasileiro.