A Espanha anunciou neste sábado (1º de agosto) que conseguiu interromper o fluxo de entrada de imigrantes em Ceuta, território autônomo espanhol no norte da África, e que a situação na cidade já está quase normalizada. Segundo as autoridades espanholas, mais de 48 mil das cerca de 50 mil pessoas que entraram na localidade desde quinta-feira (30) já retornaram ao Marrocos. O número de mortos durante a invasão em massa também subiu: agora são pelo menos 67.
O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, afirmou a jornalistas que a crise foi revertida. “Quase todos eles já deixaram Ceuta. A situação se inverteu quase completamente”, disse.
Retorno em massa e escolta militar
Na sexta-feira (31), a agência Reuters já havia flagrado um movimento voluntário de retorno de alguns imigrantes ao Marrocos. Neste sábado, imagens feitas pela agência mostraram policiais e soldados espanhóis escoltando grandes grupos de migrantes até a fronteira, para retirá-los da Espanha. As forças de segurança também patrulham a praia de Tarajal, por onde milhares de marroquinos chegaram a nado, e procuram os que ainda resistem a deixar o local.
Em um dos episódios registrados, soldados encontraram um migrante escondido em um túnel na praia. O retorno ocorre sob escolta do Exército espanhol, que trabalha em conjunto com a Guarda Civil.
Barreira flutuante de 500 metros
Para evitar novas chegadas pelo mar, a Guarda Civil começou a instalar uma barreira flutuante de 500 metros. Em comunicado, a organização explicou que a barreira pneumática, junto com uma linha de boias navais ancoradas, foi projetada para ficar de 30 a 70 centímetros acima da água e se estender até um metro abaixo da superfície.
A estrutura ainda prevê um canal entre as barreiras, que permitirá que embarcações da Guarda Civil patrulhem a área. A medida é uma resposta direta à entrada massiva de migrantes pela costa, que ocorreu em menos de uma hora.
Relatos dos migrantes
Muitos dos imigrantes que atravessaram para Ceuta foram levados a migrar por dificuldades econômicas e foram incentivados por boatos nas redes sociais. A Reuters conversou com dois homens que iniciavam o trajeto de volta para casa. Eles contaram que ficaram decepcionados ao encontrar hostilidade e falta de oportunidades.
“Eu queria ter uma vida melhor, mas aqui só encontrei fome e miséria. Queria me juntar à minha mãe na Espanha. Tudo estava fechado, inclusive os cafés. Um cigarro custava 2 euros, uma baguete custava 3 euros. Isso é demais”, lamentou Brahim Karroubi.
Mohamed, de 27 anos, também desistiu. “Vou voltar. Não há nada para fazer aqui. Os habitantes de Ceuta nos trataram mal, estamos com fome. As lojas estão fechadas”, acrescentou.
Insegurança em Ceuta
Já os moradores de Ceuta se mostraram aliviados com a volta à normalidade, mas disseram que ainda se sentem inseguros após a grande invasão. Um deles classificou como “inaceitável” a chegada de 60 mil pessoas em menos de uma hora.
“Embora as coisas tenham se acalmado um pouco, Ceuta continua sendo insegura e ainda precisamos da polícia e dos militares, porque isso é um aviso de que eles podem nos invadir quando quiserem”, disse a garçonete Marina Castano, cujo bar reabriu neste sábado.
O que é Ceuta
Ceuta é uma cidade autônoma da Espanha localizada no norte da África. Junto com Melilla, é um dos únicos territórios da União Europeia que fazem fronteira terrestre com a África. A cidade fica na costa do Mar Mediterrâneo, em frente ao Estreito de Gibraltar.
Apesar de pertencer à Espanha há séculos, o Marrocos reivindica a soberania sobre o território, o que gera atritos diplomáticos recorrentes. Por fazer parte da Espanha, Ceuta também integra a União Europeia. Para muitos migrantes, entrar na cidade representa a primeira porta de acesso ao bloco europeu.



