A Guarda Civil da Espanha começou a instalar no sábado uma barreira flutuante de 500 metros no quebra-mar de Tarajal, em Ceuta, após uma debandada de migrantes que deixou ao menos 67 mortos e levou cerca de 50 mil pessoas ao território espanhol no norte da África. A entrada de migrantes no enclave foi interrompida durante a noite, segundo informações oficiais.
O fluxo, iniciado na quinta-feira, é considerado sem precedentes em uma das únicas fronteiras terrestres da União Europeia com a África. As autoridades espanholas informaram que mais de 48 mil pessoas já retornaram a Marrocos em 48 horas. Imagens de uma agência de notícias mostraram soldados e policiais patrulhando a praia de Tarajal, praticamente deserta e envolta em neblina.
Barreira pneumática e patrulhamento
A Guarda Civil iniciou a instalação da nova estrutura às 7h50 do horário local no quebra-mar de Tarajal, um dos principais pontos utilizados em tentativas de travessia. O projeto combina uma barreira pneumática com uma linha de boias navais ancoradas. O equipamento foi planejado para permanecer entre 30 e 70 centímetros acima da água e alcançar até um metro abaixo da superfície, dificultando a passagem tanto por cima quanto por baixo.
Um canal entre as barreiras foi deixado para a passagem de embarcações da Guarda Civil, que continuam patrulhando a área. A barreira flutuante é a mais recente medida emergencial adotada pelo governo espanhol para retomar o controle da fronteira, após o colapso das defesas convencionais diante da multidão.
União Europeia em alerta
A travessia em massa gerou alarme em todo o bloco. Vinte e dois Estados-membros da UE assinaram uma carta conjunta pedindo ações coordenadas para proteger as fronteiras externas. A Irlanda, que preside o Conselho da UE, convocou uma reunião de emergência por videoconferência com os ministros do Interior para terça-feira, a fim de discutir a crise.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, de centro-esquerda, aproveitou a ocasião para criticar a decisão da Itália de suspender por um mês o acordo de livre circulação com Madrid dentro do espaço Schengen. Em carta aos presidentes da Comissão Europeia e do Conselho Europeu, Sánchez escreveu: "No atual contexto internacional, a UE não pode se dar ao luxo de ter esse tipo de reação egoísta, polarizadora e ilegal".
Mortos e investigação
O balanço oficial aponta que ao menos 67 corpos foram recuperados do lado espanhol. Alguns migrantes se afogaram, enquanto outros morreram esmagados ao tentar escalar o quebra-mar e a cerca da fronteira. Parte das vítimas teria sido incentivada por dificuldades econômicas e por boatos disseminados nas redes sociais, segundo relatos de autoridades.
O ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, responsabilizou as redes de tráfico de pessoas pela explosão de tentativas. Ele afirmou que os criminosos exploraram migrantes vulneráveis e espalharam interpretações enganosas de uma decisão do Supremo Tribunal espanhol. O tribunal havia decidido que migrantes interceptados no mar não podem ser devolvidos sumariamente na ausência de uma barreira física.
"Marrocos não representa qualquer ameaça para Ceuta ou para o resto da Espanha — é um parceiro totalmente confiável", disse Grande-Marlaska a jornalistas em Ceuta. Ele acrescentou que a ordem foi restabelecida em grande parte em 24 horas, mas que a crise ainda não havia terminado formalmente. Reforços policiais e militares permanecerão enquanto forem necessários, embora as travessias noturnas tenham caído para quase zero. O ministro também negou haver informações de inteligência sobre uma nova entrada iminente.
Controle e política migratória
O sindicato AUGC, que representa a Guarda Civil, solicitou o envio de pelo menos 200 agentes extras e alertou para a necessidade de reforçar a vigilância para impedir que migrantes contornem a barreira inflável nadando. Madrid afirmou que as pessoas que entraram irregularmente em Ceuta não poderão viajar para o restante da Espanha continental nem para a zona Schengen.
O Ministério das Relações Exteriores da Espanha acrescentou que viajantes que saem de Ceuta por via marítima ou aérea passam por verificações de identidade da polícia, o que funciona como uma segunda camada de controle após a fronteira terrestre com Marrocos.
Em contraste com a maioria da Europa, a Espanha tem mantido uma postura mais aberta em relação à migração. O país lançou um programa para regularizar mais de meio milhão de imigrantes sem documentos. O governo, no entanto, rejeita a ideia de que essa política tenha incentivado a entrada descontrolada em Ceuta. Segundo as regras, os candidatos precisam comprovar residência na Espanha antes de 1º de janeiro de 2026 e cinco meses consecutivos de permanência no momento da inscrição.



