No dia em que a guerra do Irã completa cinco meses, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu na Casa Branca o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. O encontro simultâneo dos líderes dos dois lados de guerras que deixaram de correr em paralelo reavivou o debate sobre a configuração de um conflito global. De um lado, Rússia e Irã trocam armas e inteligência; do outro, Ucrânia troca tiros diretamente com o Irã. A percepção de que o mundo vive — ou está prestes a viver — uma guerra mundial deixou de ser provocação acadêmica e tornou-se tema corrente entre analistas de segurança internacional, colunistas e formuladores de política externa.
A tese de Paul Poast
O professor de Relações Internacionais e Ciência Política da Universidade de Chicago, Paul Poast, foi um dos primeiros a dar nome e substância a essa sensação. Em maio, em entrevista à BBC News Brasil, ele afirmou: "Os EUA continuam equipando, treinando e fornecendo inteligência à Ucrânia — fazem tudo menos puxar o gatilho. E a Rússia está fazendo o mesmo pelo Irã: fornecendo armas, informações de alvejamento e assistência de planejamento." Para Poast, dois elementos bastam para justificar o conceito de guerra mundial: duas grandes guerras simultâneas em continentes diferentes — a da Ucrânia e a do Irã — e o envolvimento direto de grandes potências em ambas, cada uma apoiando o adversário da outra no conflito oposto.
Poast reconhece que a escala dos conflitos atuais está longe da devastação das duas guerras do século XX, mas recorre a um paralelo histórico menos óbvio: a Guerra dos Sete Anos, no século XVIII, que também reuniu múltiplas potências em múltiplos teatros sem alcançar aquele patamar de destruição. "Essa é uma analogia muito melhor para pensar o conceito de guerra mundial", disse. Já em maio, ele via na China o fator mais imprevisível da equação — o risco de Pequim interpretar o desgaste americano na Ucrânia e no Irã como uma janela de oportunidade sobre Taiwan. "Esse seria o grande ponto de inflexão", afirmou. Nesta terça-feira, Poast atualizou sua avaliação à BBC News Brasil: "Os acontecimentos recentes e as informações mais atuais reforçam como aquilo que talvez parecesse, em maio, uma afirmação provocativa — a de que vivemos uma guerra mundial — hoje é visto como plausível, talvez até amplamente aceito. Os dois conflitos estão atraindo mais países, e nenhum dos dois parece perto do fim." Ele repetiu a ressalva: "Isso não significa que os conflitos vão atingir o nível de violência da Primeira ou da Segunda Guerra Mundial, mas isso não é necessário para que um conflito se integre a uma guerra mundial."
O aviso de Gideon Rachman
O comentarista-chefe de política externa do Financial Times, Gideon Rachman, tratou do mesmo fenômeno em artigo publicado na segunda-feira (27). "Não há dúvida de que tanto a China quanto os EUA estão se preparando ativamente para uma guerra um contra o outro", afirma. Para Rachman, os conflitos da Europa, do Oriente Médio e da Ásia — "ainda largamente distintos" — "começam a se sobrepor". Ele lembra que as duas guerras mundiais do século passado envolveram alianças identificáveis e conflito direto entre as maiores potências do planeta, e nota que o conjunto atual de conflitos já cumpre parte desses critérios: guerras sobrepostas em dois continentes, com influência sobre conflitos na África, e uma aproximação entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte que estrategistas americanos batizaram de "eixo dos adversários" (ou "eixo da desordem").
Rachman cita o ex-diretor sênior de planejamento estratégico da Casa Branca no governo de Joe Biden, Thomas Wright, para quem "a China ajudou a Rússia a reconstruir sua capacidade militar muito mais rápido do que seria possível de outra forma, fornecendo máquinas-ferramenta, microeletrônica e outras tecnologias cruciais, além de cooperar na produção de drones". Ele pondera que a postura de Donald Trump em relação a aliados tradicionais dos EUA, somada ao isolamento crescente de Israel na Europa e em parte do Golfo, dificulta identificar um bloco unificado de resposta a esse eixo. Mesmo assim, conclui: "Conflitos regionais e erros de cálculo entre grandes potências podem ser uma combinação letal."
Ferguson: 'Não é uma pergunta absurda'
O historiador britânico Niall Ferguson, do Hoover Institution, em Stanford, vem tratando do assunto com mais cautela desde março, quando publicou dois textos a respeito. No primeiro, escrito nos primeiros dias da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, lembrou que a mesma pergunta já havia surgido quatro anos antes, com a invasão russa da Ucrânia: "Hoje, sete dias depois do início da mais recente guerra contra o Irã, a mesma preocupação ressurgiu. Não é uma pergunta absurda." Sua conclusão, porém, foi mais reservada que a de Poast: prefere falar em "Guerra Fria 2" a uma Terceira Guerra Mundial propriamente dita.
Duas semanas depois, ao analisar o envio de fuzileiros navais americanos ao Estreito de Ormuz, foi mais longe na descrição do que via: "A guerra com o Irã é ainda mais futurista que a guerra na Ucrânia. Os dois lados usam drones, e muitos ataques de precisão dos EUA e de Israel têm alvos selecionados por inteligência artificial. Isso pode entrar para a história como a primeira guerra de IA." Para ele, o movimento americano no Golfo Pérsico abre janelas estratégicas para China e Rússia explorarem outros pontos de estrangulamento globais — como o Estreito de Taiwan, do qual depende a cadeia global de semicondutores.
A leitura mais radical de Jeffrey Sachs
No outro extremo do espectro está o economista americano Jeffrey Sachs, da Universidade Columbia. Em entrevista ao podcast Greater Eurasia, do analista Glenn Diesen — professor de Ciência Política na University of South-Eastern Norway —, Sachs foi taxativo em março: "Provavelmente estamos nos primeiros dias da Terceira Guerra Mundial, e a questão será saber se ela ficará contida." E ele completou, listando o que via como sintomas do mesmo fenômeno: "A guerra na Ucrânia, claro, continua. A guerra no Oriente Médio hoje se espalha por toda a região. A guerra entre Paquistão e Afeganistão talvez tenha alguma relação com isso. Um navio de guerra iraniano foi afundado na costa da Índia. Por todas essas razões, há combates em todo o mundo. Esses combates estão, ao menos frouxamente, ligados entre si. O que não sabemos é o quão próxima é essa ligação." Sachs soma sua voz à de Poast e Rachman no diagnóstico de que os conflitos deixaram de ser isolados — mas sua leitura das causas é bem mais controversa, atribuindo o quadro a uma "busca delirante de hegemonia global" por parte dos Estados Unidos.
Um debate ainda em aberto
Nem todos os analistas endossam o rótulo de guerra mundial. Andrea Kendall-Taylor, do CNAS (Center for a New American Security, um dos principais think tanks de segurança nacional de Washington), prefere falar em "eixo da desordem" — cooperação real e crescente entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte, mas sem aliança formal, e limitada pela cautela de cada país em evitar confronto direto com os EUA. Já a ex-conselheira da Casa Branca Fiona Hill, do Brookings Institution, chamou a atenção em junho para outro ângulo: tanto Washington quanto Moscou estão consumindo seus próprios arsenais nas duas guerras, o que fragiliza a confiabilidade de ambas as potências como fiadoras de segurança para seus aliados. Nenhum dos conflitos dá sinal de que vai terminar em breve. E a cada semana cresce a chance de mais um país ser puxado para dentro deles — pela Coreia do Norte, pela China, por quem mais decidir que tem algo a ganhar. É um cenário que preocupa mais gente a cada dia que passa.



