Desde o amanhecer de domingo, aviões de guerra israelenses bombardearam a Cidade de Gaza, no norte do enclave, a cidade central de Deir al-Balah e os arredores de Khan Younis, no sul. De acordo com autoridades de saúde palestinas, ao menos 15 pessoas morreram — o maior número de vítimas fatais em um único dia em semanas. Médicos que atuam na região relataram que os ataques continuaram apesar do anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que houve progresso nos esforços para implementar o acordo de cessar-fogo assinado no ano passado.
Na quinta-feira, Trump declarou que militantes do Hamas e de outros grupos armados haviam concordado em se desarmar, o que reforçou as esperanças de uma virada na tentativa de encerrar a guerra. No domingo, porém, o ministro da Energia israelense, Eli Cohen, membro do gabinete de segurança do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, disse à Rádio do Exército de Israel que o governo dará ao Hamas a oportunidade de se desarmar, mas que está 'muito cético' de que isso aconteça. Cohen enfatizou que não há acordo para interromper os ataques a Gaza.
Israel avalia assumir controle total do enclave
Cohen acrescentou que Israel, que já controla 70% do território de Gaza, pode precisar assumir o controle completo caso o Hamas não se desarme. 'No acordo que assinamos com os Estados Unidos, nossa posição é que o Hamas deve ser desmantelado. Esta é a primeira coisa que deve acontecer', afirmou o ministro.
As Forças Armadas de Israel informaram que um ataque a um apartamento em Deir al-Balah tinha como alvo dois comandantes da força de elite do Hamas, conhecida como 'Nukhba'. Os bombardeios na Cidade de Gaza e em Jabalia também atingiram 'operativos militares', segundo a avaliação inicial dos militares, que ainda investigavam os resultados.
Ataques atingem casas, tendas e bairros residenciais
Em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza, pelo menos quatro pessoas morreram nos bombardeios, disseram as autoridades de saúde. Em Mawasi, área próxima a Khan Younis, um ataque separado feriu cinco pessoas e incendiou tendas de deslocados, de acordo com o serviço de emergência civil. Um casal e seu filho de 9 anos foram mortos em um ataque a uma casa em Mawasi. Outro casal e o filho do casal morreram em um ataque a um apartamento na Cidade de Gaza. Nessa mesma região, outras duas pessoas foram mortas em um ataque a uma tenda montada perto do escritório da representação diplomática egípcia.
Durante a tarde, duas pessoas foram mortas no bairro de Zeitoun, na zona leste da Cidade de Gaza, e uma outra foi morta perto de Jabalia, no norte do território, completando o balanço do dia.
Cessar-fogo em números: 1.230 palestinos mortos desde outubro
Desde que o cessar-fogo foi mediado em outubro, pelo menos 1.230 palestinos foram mortos em ataques israelenses, de acordo com as autoridades de saúde de Gaza. O Hamas não fornece números de suas baixas em combate. No mesmo período, quatro soldados israelenses morreram, conforme dados oficiais de Israel.
Na sexta-feira, o Conselho de Paz de Trump — órgão liderado pelos Estados Unidos que supervisiona o cessar-fogo — publicou um roteiro de 15 pontos com as etapas finais para colocar o acordo em prática. O Hamas, por sua vez, condiciona a entrega de armas a um novo órgão palestino à cessação completa dos ataques israelenses e à retirada das tropas de Israel do território.
Hamas alega flexibilidade e acusa Israel de escalada
Em declaração no domingo, Basem Naim, alto funcionário do Hamas, afirmou que o grupo demonstrou 'considerável flexibilidade' nas negociações, mas acusou Israel de tentar impor uma realidade no terreno por meio da força. 'Essa escalada, que coincide com os avanços na via política, demonstra claramente que o governo de ocupação busca minar os esforços para pôr fim à guerra e impor a realidade no terreno pela força', disse Naim.
Mohammed Dahlan, ex-dirigente do Fatah e hoje radicado nos Emirados Árabes Unidos, publicou no Facebook que Jared Kushner, genro de Trump e conselheiro envolvido na iniciativa, afirmou estar trabalhando com o lado israelense para impedir os ataques a Gaza. Dahlan acrescentou que os contatos com os Estados Unidos seguem em andamento para assegurar a implementação integral do acordo, mas que o êxito do processo depende do fim completo dos bombardeios diários israelenses contra a população de Gaza.
A Reuters entrou em contato com o Departamento de Estado dos EUA para comentar as declarações de Dahlan e não recebeu resposta imediata. As autoridades israelenses também não se pronunciaram até o fechamento desta matéria.



