Há exatamente dez anos, um terremoto político, econômico e social abalou o Reino Unido quando uma pequena maioria dos eleitores decidiu que o país deveria deixar a União Europeia, sob a promessa de um futuro melhor fora do bloco. Muitos dos que votaram a favor do Brexit buscavam maior autonomia para tomar decisões políticas, comerciais e econômicas sem a interferência da União Europeia, além de esperar reduzir a imigração e ampliar o peso geopolítico britânico.
Uma década depois, a União Europeia já não influencia diretamente as decisões britânicas, mas muitas consequências estão longe do prometido. O número 10 de Downing Street viu passar seis primeiros-ministros e se prepara para o sétimo, após a renúncia de Keir Starmer na segunda-feira (22 de junho). A saída do maior mercado comum do mundo trouxe consequências significativas para a economia e o comércio, e, ao contrário do prometido, não reduziu os fluxos migratórios — pelo contrário, eles aumentaram e mudaram de perfil.
Instabilidade política
Durante décadas, o Reino Unido foi visto como exemplo de previsibilidade e estabilidade, com conservadores e trabalhistas se alternando no poder. O Brexit rompeu essa lógica ao introduzir uma nova divisão: sair ou permanecer na UE. Desde então, seis primeiros-ministros tentaram conduzir o país sem conseguir permanecer no cargo por mais de dois anos.
"O Brexit foi tóxico para a política britânica", afirmou Jun Du, diretora do Instituto de Produtividade do Reino Unido, à BBC News Mundo. Para ela, a saída da UE aprofundou divisões e "trouxe mais instabilidade, mais polarização política e mais divisões na economia e na sociedade".
David Cameron, que convocou o referendo esperando uma vitória da permanência, tornou-se a primeira vítima política. Sua sucessora, Theresa May, enfrentou um Parlamento dividido e acabou renunciando. Boris Johnson, que fez campanha pelo Brexit, renunciou após escândalos das festas na pandemia. Liz Truss durou apenas 45 dias, após seu plano econômico desvalorizar a libra. Rishi Sunak conduziu os conservadores à pior derrota eleitoral desde a Segunda Guerra Mundial em 2024. Keir Starmer venceu, mas renunciou após dois anos, pressionado por alto custo de vida e escândalos.
Avanço da direita anti-imigração
A fragmentação política não é exclusiva do Reino Unido, mas, segundo Anand Menon, diretor do think tank UK in a Changing Europe, o Brexit "pode ter contribuído para o atual crescimento do apoio aos partidos populistas". Enquanto em 2019 os dois partidos tradicionais somaram 76% dos votos, esse percentual caiu para 58% nas eleições de 2024, com o Reform UK avançando pela direita e os Verdes à esquerda.
O crescimento do Reform UK levou Cameron a convocar o referendo, mas, longe de desaparecer, as ideias de Nigel Farage influenciaram o Partido Conservador. Para Sam Freedman, pesquisador do Institute for Government, "a imigração substituiu o Brexit como tema que polariza as mesmas coalizões". Atualmente, é provável que defensores da deportação de imigrantes tenham votado a favor do Brexit.
Aumento da imigração na contramão das promessas
O controle da imigração foi uma das principais motivações para eleitores pró-Brexit. Desde a saída, o Reino Unido implantou um sistema baseado em pontos, aplicando as mesmas regras para cidadãos da UE e de outros países. No entanto, a imigração líquida atingiu um recorde de 764 mil pessoas em 2022, segundo o Office for National Statistics (ONS), recuando para 685 mil em 2023.
John Curtice, pesquisador do National Centre for Social Research, explicou à BBC News Mundo em 2024: "Os eleitores claramente acreditavam que deixar a UE resultaria em menos imigração." Dados do UK in a Changing Europe mostram que o Brexit reduziu em cerca de 785 mil o número de trabalhadores da UE até 2024, mas aumentou em 992 mil os trabalhadores de fora do bloco. Para Jill Rutter, do Institute for Government, os governos pós-Brexit "não podem se eximir da responsabilidade pelas consequências dessas decisões".
Forte impacto sobre a economia e o comércio
O Brexit entrou em vigor em 1º de janeiro de 2021, em meio à pandemia e antes da invasão da Ucrânia. Para Jun Du, "o Brexit foi desastroso para a economia britânica". Um estudo liderado por Nick Bloom, da Universidade Stanford, com dados do Banco da Inglaterra, estima que a economia britânica sofreu um impacto equivalente a 6% do PIB, podendo chegar a 8%. Cerca de metade do impacto decorreu da incerteza pós-referendo; a outra metade, do aumento das barreiras comerciais após 2021.
No comércio exterior, as exportações do Reino Unido para a UE caíram cerca de 23%, e as importações recuaram aproximadamente 17%, segundo Du. "A situação comercial é realmente muito ruim", conclui.
Retorno à União Europeia?
Dez anos após o Brexit, a maioria dos britânicos considera a saída um erro. Pesquisa do European Council on Foreign Relations mostra que 52% votariam hoje pela volta à UE, e 57% afirmam que deixar o bloco foi um erro. Entre os jovens que não puderam votar em 2016, esse percentual sobe para 70%.
O programa de Keir Starmer previa reaproximação gradual, mas estabelecia uma linha vermelha: não retornar à UE, ao mercado único ou à união aduaneira. O possível sucessor Andy Burnham já manifestou desejo de retorno "no longo prazo", mas Jun Du duvida que rompa com o programa eleitoral. "O que pode ocorrer é algum tipo de alinhamento regulatório em setores específicos", disse.
Mark Leonard, diretor do European Council on Foreign Relations, observa que "o caótico cenário de 2026 é muito diferente daquele de 2016 e, em muitos aspectos, mais sombrio". Para Du, "no imaginário coletivo, o Reino Unido ainda é visto como um ator muito poderoso, mas, na prática, trata-se de uma potência média, dependente do comércio internacional e cada vez mais isolada no mundo".



