A pior seca em décadas na Europa Central levou a níveis recordes de baixa nos rios, forçando cortes significativos na geração nuclear na Hungria e na Romênia. A usina nuclear de Paks, na Hungria, responsável por cerca de metade da eletricidade do país, reduziu sua capacidade em 50%, enquanto a usina de Cernavodă, na Romênia, cortou 20% de sua produção.
Danúbio atinge mínima histórica
O rio Danúbio, vital para o resfriamento das usinas nucleares, atingiu níveis nunca vistos em agosto. Na Hungria, a vazão caiu para 1.200 metros cúbicos por segundo, muito abaixo da média de 2.500. "É a pior situação de baixa vazão já registrada", afirmou o ministro da Energia húngaro, Csaba Lantos, em entrevista coletiva. "Para garantir a segurança e o resfriamento adequado, fomos obrigados a reduzir a potência do reator."
A usina de Paks, que opera quatro reatores do tipo VVER-440, já havia enfrentado problemas semelhantes em 2022, mas a atual crise é mais severa. O nível do Danúbio em Budapeste caiu para 45 centímetros, o menor desde 1838, de acordo com dados da administração de recursos hídricos húngara.
Romênia também afetada
Na Romênia, a usina nuclear de Cernavodă, que fornece cerca de 18% da eletricidade do país, também reduziu sua geração. O operador da usina, Nuclearelectrica, anunciou que um dos dois reatores CANDU foi colocado em operação reduzida. "A vazão do canal de resfriamento caiu abaixo dos limites operacionais mínimos", disse Cosmin Ghiță, CEO da Nuclearelectrica. "Tomamos esta medida preventiva para evitar danos ao equipamento e garantir a segurança nuclear."
O governo romeno declarou estado de alerta hídrico em 13 bacias hidrográficas. As autoridades pediram que a população economize água, enquanto as indústrias intensivas em água, como a agricultura e a energia, enfrentam restrições.
Impacto no sistema elétrico
Os cortes na geração nuclear coincidem com uma onda de calor que elevou a demanda por eletricidade para refrigeração. Na Hungria, a redução de 50% em Paks retirou cerca de 1.000 MW da rede, forçando o operador do sistema, MAVIR, a aumentar a importação de eletricidade de países vizinhos, como a Áustria e a Eslováquia. Os preços no mercado atacadista húngaro subiram 30% na última semana.
Na Romênia, o corte de 20% em Cernavodă reduziu em cerca de 140 MW a oferta. O sistema elétrico romeno, que já enfrentava problemas com a redução da geração hidrelétrica devido à seca, teve que recorrer a usinas a carvão e gás, aumentando as emissões de CO₂. "A situação é crítica. Estamos usando todas as fontes disponíveis para evitar blecautes", declarou o ministro da Energia romeno, Sebastian Burduja.
Perspectivas e medidas
As previsões meteorológicas indicam que a seca deve persistir por pelo menos mais duas semanas, com temperaturas acima da média e ausência de chuvas significativas. A Hungria está considerando a construção de uma torre de resfriamento a seco em Paks, que permitiria operar independentemente do nível do rio, mas o projeto levaria anos para ser concluído. "Investir em infraestrutura resiliente é essencial para o futuro da energia nuclear", afirmou Lantos.
Na Romênia, a Nuclearelectrica estuda a dragagem do canal de resfriamento para aumentar a vazão. A empresa também está em conversas com o governo para obter permissão para usar água subterrânea de aquíferos próximos. "Precisamos de soluções de curto prazo para enfrentar esta crise imediata", disse Ghiță.
Os eventos destacam a vulnerabilidade das usinas nucleares às mudanças climáticas. Com o aumento da frequência de secas e ondas de calor, operadores em toda a Europa estão revisando seus planos de contingência. A Agência Internacional de Energia (AIE) alertou que "a segurança hídrica é tão importante quanto a segurança energética" e pediu investimentos urgentes em resfriamento alternativo.
Enquanto isso, os consumidores húngaros e romenos enfrentam tarifas de eletricidade mais altas e o risco de apagões localizados. A situação serve como um alerta sobre os desafios de manter a geração nuclear estável em um clima em mudança.



