Onda de calor na Europa provoca crise existencial
A onda de calor atual deixou muitos europeus numa espécie de crise existencial porque ela desafia uma das ideias fundamentais da civilização europeia. Na Alemanha, por exemplo, a ideia dominante há séculos é de verões temperados, previsíveis e inofensivos. As casas foram construídas para conservar o calor e não dissipá-lo. Isolamento térmico, janelas pequenas, pouca climatização e cidades densas: isso funciona bem no inverno. Ou seja, uma grande inadequação estrutural para lidar com verões de 40 graus.
O frio como risco histórico
Durante séculos, o frio foi percebido como o grande risco ambiental europeu. Energia significava aquecimento. Políticas públicas significavam proteger a população contra o inverno. Pobreza climática era apenas passar frio. No entanto, hoje, em muitos lugares, o maior risco de vida passou a ser os verões, e não os invernos. A onda de calor mais severa já registrada na Europa foi associada a mais de 1.300 mortes na França na última semana, segundo autoridades francesas.
Mudança de mentalidade necessária
Isso exige uma mudança importante de mentalidade. A ameaça cotidiana deixa de ser apenas o frio, mas também o calor. Não à toa o clima nos últimos dias foi de certa histeria. Desigualdade, além disso, vai começar a significar também poder ter acesso a um ar-condicionado e poder pagar a conta mais alta de energia.
Adaptação ao dia a dia
Outra questão é como adaptar o dia a dia a esses verões mais intensos. Fazer as coisas mais cedo, parar tudo à tarde, voltar só no início da noite. Isso é algo que gente em outros países até conhece bem. Mas, em dias quentes na Europa, a temperatura simplesmente não baixa. O auge do calor muitas vezes é às 17h e o sol só se põe às 22h. Não à toa escolas fecharam na Europa. Alguns comércios também não abriram.
Conflito na União Europeia
No meio disso tudo surge outro dilema. A União Europeia quer se apresentar como líder mundial da política climática. Mas as ondas de calor criam um conflito entre dois objetivos igualmente legítimos: um que é proteger imediatamente a população vulnerável; e outro que é reduzir emissões e consumo energético no longo prazo, ao menos de energia suja.
A questão existencial
Acima de tudo, o calor questiona aquela narrativa de uma adaptação gradual. E talvez essa seja a questão mais existencial por aqui. A ideia de que a Europa poderia, aos poucos, ir se adaptando às mudanças climáticas – e ao calor ligado a ela. Mas esta semana mostra que tudo vai ter que acontecer bem mais rápido. A Europa é o continente que mais esquenta no mundo. E a questão imediata pode estar deixando de ser como preservar o clima europeu para ser como preservar o modo de vida europeu numa Europa mais quente.



