Tesouro dos EUA compra ienes pela primeira vez em mais de década
Tesouro dos EUA compra ienes pela 1ª vez em mais de década

O Tesouro dos Estados Unidos comprou ienes na sexta-feira em uma ação coordenada com Tóquio para sustentar a moeda japonesa, que sofre forte desvalorização e permanece próxima de mínimas em quatro décadas. Segundo o Financial Times, esta foi a primeira intervenção de Washington na compra de ienes em mais de dez anos.

Operação via Fed e grandes bancos

O Federal Reserve de Nova York, agindo em nome do Tesouro, vendeu euros por ienes por meio do Goldman Sachs e do Morgan Stanley, conforme reportagem do Financial Times que cita pessoas familiarizadas com o assunto. A reportagem não indicou a quantia total de ienes comprada na operação, mas o movimento sinaliza um esforço coordenado das autoridades americanas para conter a queda da moeda japonesa.

Ainda na sexta-feira, o Tesouro comunicou a vários bancos que poderia intervir novamente no mercado de ienes e que eles deveriam “estar preparados para futuras ações”, revelou uma fonte à Reuters. A informação ganhou reforço com uma fotografia divulgada pela Reuters do bloco de notas do secretário do Tesouro, Scott Bessent, durante uma reunião de gabinete em Camp David, Maryland. No papel, era possível ler: “A Fazer”, seguido de “Comprar ienes japoneses (JPY) de US$ 5 a 10 bilhões”.

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Impacto imediato no câmbio

A notícia da possível intervenção do Tesouro ajudou a impulsionar o iene, com um salto notável no final da tarde de sexta-feira. O dólar caiu para cerca de 157,6 ienes pouco antes das 17h no horário de Brasília, ante aproximadamente 158,9 ienes por volta das 17h14, segundo dados da LSEG. O movimento reverteu parte da trajetória recente da moeda americana, que havia se valorizado nas últimas semanas até alcançar quase 164 ienes, o maior valor desde 1986.

A apreciação do dólar sobre o iene tem sido alvo de preocupação tanto em Tóquio quanto em Washington, pois enfraquece a competitividade das exportações japonesas e aumenta o custo de importações de energia e matérias-primas no Japão.

Esforços japoneses e possível anúncio conjunto

O Japão também tem agido de forma independente. Dados do banco central divulgados na sexta-feira indicam que o país pode ter vendido até US$ 58,97 bilhões para comprar ienes na quinta-feira, em uma tentativa de conter a desvalorização da moeda. Já o jornal Nikkei informou no sábado que Tóquio interveio novamente durante o horário de negociação em Nova York na sexta-feira, reforçando os esforços para estabilizar o câmbio.

Em meio a essas movimentações, a agência de notícias Kyodo reportou que Japão e Estados Unidos podem divulgar uma política conjunta já na próxima semana para lidar com a desvalorização do iene, citando fontes bem informadas. O anúncio serviria como um alerta contra apostas especulativas que pressionaram a moeda japonesa, com o objetivo de estabilizar os mercados.

Os dois países coordenaram ações pela última vez em 2011, quando os membros do G7 intervieram para estabilizar os mercados após o terremoto e o tsunami que devastaram o Japão. Agora, o cenário é diferente, mas a pressão sobre o iene reacendeu a necessidade de uma resposta conjunta.

Ferramentas disponíveis e o papel da linha FIMA

Em um aparente esforço para acalmar as preocupações do mercado sobre os limites da capacidade de intervenção japonesa em larga escala, o Ministério das Finanças do Japão publicou no X que as autoridades monetárias do país possuem “uma ampla gama de ferramentas para atender às necessidades de liquidez do mercado”.

“Continuamos preparados para utilizar as ferramentas disponíveis, conforme necessário, para apoiar o funcionamento ordenado do mercado”, afirmou o ministério, mencionando inclusive o possível acesso à Linha de Recompra (Repo) permanente do Federal Reserve junto às Autoridades Monetárias Estrangeiras e Internacionais (FIMA).

A linha FIMA, criada em 2020 para estabilizar os mercados durante a pandemia de Covid-19, permite que o Japão aumente sua liquidez em dólares sem precisar vender títulos do Tesouro dos EUA diretamente. Isso alivia potenciais pressões de financiamento sobre Tóquio para futuras intervenções cambiais e amplia o leque de opções disponíveis às autoridades japonesas.

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Procurados, o Tesouro americano, o Federal Reserve de Nova York e o Morgan Stanley não responderam imediatamente aos pedidos de comentário fora do horário comercial normal. O Goldman Sachs, por sua vez, se recusou a comentar o assunto.