Como um parafuso de 60 graus mostrou o poder dos EUA ao mundo
Parafuso de 60 graus: como os EUA impuseram seu padrão

Na década de 1920, o mundo industrial era uma colcha de retalhos de regras incompatíveis. Nos Estados Unidos, essa bagunça era ainda mais visível: apesar de serem uma só nação, cada Estado mantinha critérios próprios. Um semáforo verde em Nova York podia significar "pare", enquanto em Buffalo, cidade vizinha, o mesmo verde mandava seguir. Foi nesse universo confuso que um objeto tão pequeno quanto um parafuso se tornou uma das primeiras grandes demonstrações do poder americano no século 20.

Padronizar para prosperar

Quem tentou colocar ordem no caos foi Herbert Hoover, então secretário de Comércio — anos antes de se tornar o presidente marcado pela Grande Depressão. Hoover acreditava que sistemas e organização eram a chave para a prosperidade. "Ele simplesmente acreditava em sistemas. Era um burocrata clássico, antes de esse termo ganhar uma conotação negativa e passar a significar alguém que não faz nada", explica Roman Mars, criador do podcast 99% Invisible.

Hoover decidiu padronizar de paralelepípedos a copos e taças. Se havia 65 tamanhos diferentes de paralelepípedos para pavimentar ruas, ele queria reduzi-los a 11. Assim, uma peça danificada poderia ser substituída por outra idêntica, sem improviso. Lençóis de hospital, molas de cama, forros de freio, pneus e até copos de vidro passaram pelo filtro do secretário. Ficou definido, por exemplo, que um copo de vidro deveria resistir seis horas a água fervente para ser comercializado como tal, e que um pneu precisaria conter 70% de borracha nova.

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A disputa pela rosca perfeita

Padronizar a fabricação de tecidos hospitalares afeta apenas um setor. Já padronizar o parafuso afeta toda a economia. "Mesmo que você produza um objeto que não tenha parafusos, ele é fabricado por uma máquina que precisa de parafusos", destaca o historiador Daniel Immerwahr, autor de How to Hide an Empire (Como Esconder um Império, em tradução livre).

O ponto crítico era a rosca — o filete em espiral que envolve o corpo do parafuso e precisa se encaixar com precisão na peça que o recebe. Uma rosca de 60 graus e outra de 55 graus são visualmente quase idênticas, mas incompatíveis na prática. "A diferença não é fácil de perceber", diz Immerwahr. "Mas a diferença é tudo."

Chegar a um acordo sobre paralelepípedos foi simples perto de fazer o país inteiro adotar uma única rosca. Ninguém queria perder, ninguém queria ceder. Mas, em 1924, os Estados Unidos aprovaram o padrão nacional para parafusos com rosca de 60 graus. Eufórico, Hoover declarou: "É um sonho realizado! A utopia é nossa." O resto do mundo, porém, continuava falando outra língua — e essa falta de entendimento se tornaria uma questão de vida ou morte.

Guerra e incompatibilidade

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, o presidente Franklin D. Roosevelt usou uma das analogias mais famosas do século 20 para justificar a ajuda aos aliados: "Suponham que a casa do meu vizinho esteja pegando fogo e eu tenha uma mangueira de jardim a poucos metros. Se ele puder pegar a minha mangueira e conectá-la à torneira dele, poderei ajudá-lo a apagar o incêndio." Como observa Immerwahr, faltou lembrar que mangueiras nem sempre encaixam.

O pequeno detalhe, multiplicado por milhões de peças, quase paralisou o esforço aliado. No início da guerra, um funcionário canadense afirmou que não havia um único fuzil nem uma única bala que pudesse ser compartilhada entre os aliados. Os Estados Unidos se tornaram o grande fornecedor de armamentos, veículos e suprimentos, mas aviões, tanques e caminhões eram montados e consertados a milhares de quilômetros de onde haviam sido fabricados — e, muitas vezes, os parafusos disponíveis simplesmente não encaixavam. Ao longo de todo o conflito, os americanos gastaram US$ 600 milhões enviando parafusos, porcas e pinos extras para o exterior. Com esse valor, daria para construir cerca de mil bombardeiros B-29.

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Foi então que o Reino Unido, que usava a rosca de 55 graus, sentou-se para negociar com Washington. Immerwahr analisou as atas de reuniões realizadas entre 1943 e 1945 e viu naquelas negociações o pôr do sol de um império e o alvorecer de outro. Na primeira reunião, os britânicos disseram que estavam dispostos a discutir. Na segunda, que considerariam reequipar fábricas. Na terceira, que fariam a adaptação temporariamente, "para os fins da guerra". Na quarta, cederam: adotariam o padrão americano. "Uma coisa era os Estados Unidos terem declarado sua independência — mas isso era o Reino Unido declarando sua dependência", resume Immerwahr. A rendição acontecia enquanto as bombas nazistas ainda caíam sobre Londres.

ISO e o efeito manada

Depois que os Estados Unidos e todo o Império Britânico passaram a usar o mesmo ângulo de rosca, o resto do planeta seguiu o exemplo. Padrões criam um efeito manada: quando a maioria adota uma prática, é mais vantajoso aderir do que resistir. Em 1947, delegados de 25 países fundaram a Organização Internacional de Padronização (ISO), uma espécie de "Nações Unidas dos objetos".

Um dos exemplos favoritos de Immerwahr é a placa de "pare". Um policial de Detroit, incomodado com a confusão causada pela placa quadrada de "STOP", cortou os cantos e criou o formato octogonal. A ideia se espalhou e, em 1953, virou padrão internacional: octógono amarelo. Um ano depois, químicos americanos desenvolveram uma tinta vermelha refletiva mais durável, e os engenheiros de trânsito decidiram que o vermelho era melhor. Washington mudou de cor e, mais uma vez, o mundo teve de se adaptar. Hoje, os países que usam a placa octogonal vermelha representam 91% da população mundial — incluindo a Coreia do Norte.

Mas os próprios Estados Unidos se reservam o direito de ignorar padrões inconvenientes. O caso mais claro é o sistema métrico, criado na França antes de Washington se tornar potência industrial. Os americanos, praticamente sozinhos, nunca o adotaram. Por isso, a maior parte do mundo joga futebol em um campo de 100 metros, conforme a regra da Fifa, enquanto nos Estados Unidos o futebol americano é jogado em um campo da NFL com 100 jardas.

Um império sem coroa

Ao fim da Segunda Guerra, os Estados Unidos tinham bases militares e frotas espalhadas pelo mundo e estavam entre as poucas economias industrializadas de pé. Poderiam ter seguido o manual clássico dos impérios, com colônias e governadores. Não o fizeram — não por virtude, mas porque encontraram um caminho melhor. Como argumenta Immerwahr, o novo tipo de poder americano não abre mão da força nem do território, mas não precisa apontar uma arma para impor seus padrões. Redes de manufatura, normas técnicas e cadeias de suprimentos garantiram que grande parte do mundo passasse a depender de tecnologias, produtos e regras nascidos nos Estados Unidos.

No fim, a história do parafuso revela uma lição maior: impérios também se constroem com catálogos técnicos. Ou, como resume o historiador em sua análise, às vezes não é preciso hastear uma bandeira quando os parafusos já foram apertados.