Casarão de 1738 em Baependi preserva quase 300 anos de história
Casarão de 1738 em Baependi preserva história

Em meio à Serra da Mantiqueira, o casarão da Fazenda da Roseta, em Baependi (MG), carrega quase 300 anos de história mantendo uma rara ligação com o passado: a construção erguida em 1738, quando o Brasil ainda era colônia de Portugal, nunca saiu das mãos da mesma família. Administrada pela sexta geração da família Maciel, a propriedade atravessou os períodos colonial, imperial e republicano e, desde 2013, recebe visitantes que querem conhecer um dos mais bem preservados conjuntos históricos do Sul de Minas.

A decisão de abrir as portas ao público, no entanto, não veio de um plano comercial. Durante a organização de documentos antigos, o proprietário Paulo Maciel Júnior encontrou um manuscrito deixado pela mãe, que tinha o hábito de registrar os sonhos logo ao acordar. No papel, ela escreveu que a fazenda deveria se transformar em um empreendimento turístico. "Aquilo nos marcou muito. Entendemos que abrir as portas seria uma forma de manter a fazenda e a história vivas", conta.

Do período colonial ao reconhecimento internacional

A história da Fazenda da Roseta começa com uma sesmaria, modelo de concessão de terras adotado pela Coroa Portuguesa durante a ocupação do Sul de Minas. O nome da propriedade remete ao antigo Ribeirão das Rosetas, citado no documento original da concessão. Posteriormente, a área foi adquirida pela família Maciel, que já estava na região quando o Caminho Velho da Estrada Real atravessava o Sul de Minas.

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Em 1993, a fazenda recebeu o reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) por integrar a Rede Internacional de Reservas da Biosfera, criada pelo Programa Homem e a Biosfera (MAB). O título é concedido a áreas protegidas consideradas estratégicas para a conservação dos principais ecossistemas do planeta, mas também reconhece iniciativas que conciliam preservação ambiental e desenvolvimento sustentável.

Ao longo dos séculos, o casarão passou por diferentes transformações. Na década de 1940, uma grande reforma alterou parte das características coloniais para o estilo neocolonial. Em 2006, novas intervenções recuperaram e adaptaram a estrutura para receber visitantes. Hoje, o conjunto reúne 16 edificações e estruturas históricas preservadas, incluindo muros e calçamentos de pedra, a Gruta de Nossa Senhora de Lourdes e o antigo moinho de fubá, transformado em Museu do Trabalhador Rural.

Da restauração de emergência ao turismo de memória

A restauração iniciada em 2006 não tinha, inicialmente, a intenção de criar um empreendimento turístico. Segundo o proprietário, a prioridade era impedir que o casarão continuasse se deteriorando. Foi somente depois da descoberta dos escritos da mãe que a família decidiu investir na atividade turística como forma de ajudar a preservar o patrimônio.

Aberto aos visitantes desde 2013, a Fazenda da Roseta recebe cerca de 600 pessoas por ano, oferece 15 quartos e 40 leitos, e conta com uma equipe de quatro funcionários. Os visitantes encontram espaços dedicados à memória rural, como o casarão transformado em museu, o Museu dos Coches, uma biblioteca histórica e o Pouso do Tropeiro. O complexo é reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

Custo alto para manter quase três séculos de história

Preservar um patrimônio de quase 300 anos exige investimento constante. Segundo a família, a conservação da Fazenda da Roseta demanda aproximadamente R$ 350 mil por ano. Desde o início do processo de restauração, já foram investidos cerca de R$ 1,8 milhão na recuperação das edificações e estruturas históricas. A hospedagem, as visitas guiadas e as experiências oferecidas aos visitantes ajudam a financiar essa manutenção.

O proprietário, porém, alerta para os desafios de manter o negócio sustentável. "O maior desafio é conseguir sustentabilidade financeira para a manutenção. Muitas benfeitorias, como o engenho de cana, a máquina de café e o armazém, acabaram se perdendo por falta de manutenção. Dependemos do turismo e estamos sujeitos às crises econômicas do país e até ao clima. É preciso equilibrar a conservação do patrimônio com a sustentabilidade do negócio", afirma.

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Apesar das dificuldades, a motivação permanece ligada à possibilidade de manter viva a história da propriedade. "Durante séculos, a fazenda produziu alimentos. Hoje produzimos experiências, conhecimento e memória. Quando uma pessoa visita a Roseta e entende a importância desse patrimônio, ela também passa a ajudar na sua preservação", diz.

Patrimônio como chave para entender o Brasil

Especialistas ouvidos pela reportagem destacam o valor de construções como essa para a formação histórica do país. A arquiteta e urbanista Daniela Bobsin, especialista em Conservação e Restauração do Patrimônio Cultural, ressalta que imóveis desse período preservam técnicas construtivas, modos de vida e parte da memória da ocupação do território brasileiro. "A longevidade de um casarão como esse não depende apenas dos materiais utilizados na época, mas principalmente da manutenção contínua realizada ao longo dos anos", afirma.

A trajetória da Fazenda da Roseta acompanha a própria ocupação do Sul de Minas. Desenvolvida ao longo do antigo Caminho Velho da Estrada Real, a propriedade produziu açúcar, café, laticínios e manteiga ao longo dos séculos, refletindo diferentes momentos da economia e da formação da região. Para a secretária municipal de Cultura e Turismo de Baependi, Ana Cristina, iniciativas como a da fazenda ajudam a manter viva a memória e a aproximar moradores e visitantes da história do município.

A turismóloga Cássia Almeida reforça que o turismo pode ser um aliado da preservação quando respeita as características originais dos imóveis históricos. "O turismo bem planejado ajuda a financiar a preservação, fortalece a identidade cultural dos territórios e aproxima as pessoas de sua própria história. Quando um patrimônio é visitado e valorizado pela comunidade, ele ganha novas possibilidades de permanência", diz.

O futuro de um legado que atravessa gerações

Depois de quase três séculos atravessando o tempo, o futuro da propriedade segue ligado à preservação desse legado e ao contato de novas gerações com a história da região. Como resume o proprietário, inspirado em um sonho registrado pela mãe há duas décadas: "Durante séculos produzimos alimentos. Hoje produzimos sonhos."

Baependi, que reúne um importante conjunto de imóveis históricos preservados, encontra na Fazenda da Roseta um exemplo de como patrimônio, natureza e turismo podem caminhar juntos. A expectativa é que o casarão continue sendo cuidado e compartilhado com as próximas gerações, mantendo viva a memória de um tempo em que o Sul de Minas ainda se formava.