Adversário da seleção brasileira na Copa do Mundo nesta sexta-feira (18), o Haiti enfrenta uma crise humanitária decorrente de um problema crônico de violência de gangues e de um governo enfraquecido. A ilha caribenha está passando atualmente pela pior crise do hemisfério ocidental, segundo disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, nesta semana. A violência de gangues criminosas, que dominam as ruas haitianas há anos e aterrorizam a população, gerou uma crise com milhares de mortos e milhões passando fome.
Haiti em crise
O Haiti, que é o país mais pobre das Américas, vem enfrentando uma crise política e social que se intensificou em 2021, quando o então presidente Jovenel Moïse foi assassinado. Dois anos depois, em janeiro de 2023, o Parlamento teve todos os mandatos encerrados, o que consolidou a falência do governo haitiano. Desde então, o país sofre com um vácuo total de poder e passou a ser considerado um Estado falido.
Em meio ao caos político, as gangues tomaram o poder das ruas e de quase toda a capital Porto Príncipe. Os criminosos passaram a controlar as exportações do país e atualmente detêm 90% da economia local. A ilha também enfrenta uma grave crise econômica desde 2022. O primeiro-ministro Ariel Henry, que se tornou o chefe do Executivo após o assassinato de Moïse, foi forçado a renunciar em exílio em 2024. Meses após a queda de Henry, em abril de 2024, a liderança política do país fez um acordo para formar um Conselho de transição para restabelecer a ordem no governo. No entanto, ainda não se sabe se a iniciativa está surtindo o efeito desejado, e houve mais uma troca na liderança do país. O atual premiê é Alix Didier Flis-Aimé.
Conexão Brasil e Haiti
Não é de hoje que o Haiti é castigado com crises, como violência e desastres naturais. No entanto, tais problemas acabaram aproximando o país do Brasil. Um terremoto de 7,0 na escala Richter devastou o país em 2010 e causou centenas de milhares de mortos e deixou milhões de desabrigados. O governo brasileiro e outros países do mundo, liderados pela ONU, enviaram recursos humanitários para ajudar a ilha a se recuperar.
O Brasil também acudiu o Haiti em outros desastres naturais, como no terremoto de 7,2 de magnitude em 2021, quando enviou militares e cerca de 11 toneladas de suprimentos. Para além dos desastres naturais, os países também se aproximaram por conta do futebol. Em 2004, a seleção pentacampeã mundial foi ao Haiti jogar um amistoso contra a seleção haitiana. A partida paralisou uma guerra civil que estava ocorrendo no país e ficou conhecida como "Jogo da paz".
"Lembro de tudo. De ir de tanque para o estádio. Chegando lá, todos nós tivemos noção de que aquilo não era só futebol, era muita coisa envolvida, e foi lindo", conta Ronaldinho Gaúcho, campeão mundial em 2002. Na ocasião, um milhão de haitianos escoltaram a seleção do aeroporto até o estádio da capital, Porto Príncipe, e teve correria acompanhando o ônibus da equipe nas ruas do país. Com isso, os haitianos passaram a torcer pelo Brasil nas Copas do Mundo. Neste torneio, no entanto, a canarinho ficou em segundo plano por conta da participação do Haiti após 52 anos fora.
Torcida barrada na Copa
Cidadãos do Haiti estão proibidos de entrar nos Estados Unidos durante a Copa do Mundo por decisão do governo de Donald Trump. A medida também afeta torcedores de outros países classificados para o torneio, como Irã e Senegal. Em junho de 2025, Trump assinou a ordem determinando que cidadãos do Haiti, além de outros 18 países, ficariam impedidos de entrar nos EUA por razões de segurança nacional. O presidente afirmou que a medida tinha como objetivo evitar ataques terroristas e outras ameaças.
Para outros cinco países que também estarão na Copa — Argélia, Cabo Verde, Costa do Marfim, Senegal e Tunísia — os EUA suspenderam a exigência de uma caução de até US$ 15 mil (R$ 75 mil) para entrada no país. A medida, porém, vale apenas para torcedores que têm ingressos para o Mundial. Para muitos imigrantes que já vivem nos EUA, o desafio é diferente. Mesmo com ingressos, alguns torcedores relatam medo de comparecer aos jogos da Copa do Mundo e acabar sendo detidos por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês).
O temor é especialmente forte entre comunidades latino-americanas, incluindo milhares de haitianos que vivem no país. "Cantar o hino nacional do meu país em um estádio, diante de todo mundo, é um momento histórico que ninguém gostaria de perder. Mas, ao mesmo tempo, penso duas vezes. Não quero que o ICE me prenda. Meu advogado me aconselhou a não viajar para evitar ser interceptado no aeroporto", declarou Emile, um haitiano que vive nos Estados Unidos e preferiu não revelar o sobrenome, em entrevista à AFP.



