Um comercial gravado em Itararé (SP) esteve entre os finalistas de um dos principais festivais de publicidade do mundo, realizado em Cannes, na França, na quinta-feira (25). Além da produção publicitária, o diretor e roteirista do filme, Matheo Fernandes, também de Itararé, concorreu ao Young Director Award, premiação que reconhece novos talentos da direção audiovisual.
Ao g1, Matheo contou que nem o comercial nem sua indicação conquistaram os prêmios. Ainda assim, ele considera a experiência uma grande conquista. "Só de estar aqui já me sinto vencedor. Toda a equipe se dedicou muito ao projeto, mas em nenhum momento imaginamos que ele abriria tantas portas. Fizemos o filme por acreditar nele, e agora estamos descobrindo o alcance que esse trabalho pode ter", afirmou Matheo.
Indicação e representatividade brasileira
A notícia da indicação chegou à equipe em junho. Segundo Matheo, nesta edição do festival, o grupo responsável pela produção foi o único representante do Brasil na categoria de comerciais publicitários.
Essa não foi a primeira vez que o grupo participou de premiações internacionais. Em novembro do ano passado, os responsáveis pela produção venceram a categoria de melhor comercial em um evento realizado na Polônia. O prêmio foi entregue pelas mãos do diretor de fotografia Bradford Young, indicado ao Oscar.
"Desde janeiro deste ano tivemos a alegria de receber algumas indicações em festivais ao redor do mundo. Foi uma surpresa muito feliz para toda a equipe", aponta Matheo.
Trajetória do comercial
O trabalho foi gravado em uma área florestal de Itararé. Ao longo de 2025, a produção passou por cidades como Los Angeles, Berlim e Londres, até chegar a Cannes, o que, para eles, significa um encerramento de ciclo. "É o ponto mais alto de uma trajetória que começou muito antes da indicação."
Ao realizar a inscrição de participação, o grupo estava com expectativas modestas, por se comparar com os outros trabalhos que integravam o festival. "Foi uma surpresa genuína. Também acredito que a diversidade de perspectivas dentro do júri tenha sido importante para ampliar o olhar sobre narrativas vindas de diferentes partes do mundo, incluindo o Sul Global", disse o roteirista.
Experiência e aprendizado
Mesmo sem trazer os prêmios para casa, Matheo considera que a experiência de participar do festival foi a principal recompensa. Segundo ele, o evento proporcionou a troca de experiências com profissionais de diferentes países, a criação de novas conexões e a possibilidade de abrir caminhos para futuros trabalhos. "Desde o início enxergávamos o projeto como uma oportunidade de fazer um filme do qual tivéssemos orgulho. A repercussão que ele alcançou superou todas as nossas expectativas", comemora.
Produção e equipe
Na produção da propaganda trabalharam quatro pessoas que integram o coletivo/produtora de publicidade no qual Matheo atua há cinco anos. Ao g1, ele ressaltou que o resultado só foi possível graças ao trabalho coletivo e à dedicação da equipe na entrega do produto final. O trabalho de cor foi assinado pela colorista alemã Franziska Heinemann, e a filmagem ficou sob responsabilidade do diretor de fotografia dinamarquês Nicholas Bluff.
A ideia para o comercial surgiu após um colega dinamarquês apresentar o produto a Matheo. Diferente dos tradicionais painéis brancos ou prateados usados para rebater a luz, o item propõe uma abordagem mais natural e artística.
Conceito e inspiração
Cada tecido é inspirado nas cores e texturas da paisagem brasileira (areia, céu, floresta e concreto) e reage à luz de forma única, criando reflexos sutis e orgânicos. Assim nasceu a proposta de gravar o filme em espaços naturais de Itararé, que ajudaram a potencializar o conceito da marca. "Voltei para Itararé e só quando você sai de um lugar consegue encarar a beleza. Foi um reencontro e voltar a entender que existem muitas histórias para serem contadas. Meu sonho é que Itararé se torne um polo de gravação. Tenho orgulho de dizer que venho de lá, orgulho interiorano", disse Matheo.
Todo o material foi filmado com câmeras de 35 milímetros. A simplicidade do filme, segundo Fernandes, foi pensada para otimizar a produção do comercial. Ele explicou que o processo de pós-produção foi realizado em Berlim, na Alemanha, e contribuiu para a qualidade final do projeto. Ainda segundo o diretor, o ritmo do comercial convida o espectador a desacelerar. Para ele, não é um produto pretensioso nem busca vender os rebatedores de luz, mas inseri-los dentro do contexto apresentado. O produto, segundo ele, "não é o destaque, mas o convidado da produção".
Reconhecimento e carreira
O reconhecimento por seu trabalho foi recebido com grande alegria. Ele destaca que fazer filmes exige dedicação e também uma "pitada" de vulnerabilidade, encarando a produção como uma forma de observar o mundo. "Depois disso, o filme deixa de ser apenas seu e passa a pertencer também às pessoas que assistem. Quando ele encontra ressonância e recebe esse tipo de reconhecimento, é difícil imaginar uma recompensa maior", disse.
Sobre a indicação, ele não imaginava que isso aconteceria de forma tão orgânica e cedo em sua carreira. Agora, ele tem a oportunidade de conviver com profissionais que antes admirava à distância e é recebido por eles com carinho e respeito. "É quase inacreditável pensar que isso realmente aconteceu. É uma das principais referências para diretores emergentes no mundo, não existe palco melhor para receber esse tipo de reconhecimento. Existe uma sensação muito bonita de representar o Brasil em um contexto internacional e mostrar a força criativa que temos por aqui. É algo que não tem preço. Seria mentira dizer que eu nunca sonhei com isso. Todo diretor que ama o que faz imagina, em algum momento, chegar a lugares como esse", declarou.
Origens artísticas
Matheo nasceu na capital paulista e, ainda criança, se mudou com a família para Itararé. Foi no interior de São Paulo que suas raízes artísticas começaram a se desenvolver, inicialmente exploradas por meio da fotografia experimental. "Eu vivo para isso [arte]. Eu acho que é a maneira com que consigo me expressar melhor", completou o paulista. Aos 17 anos, ele decidiu voltar para São Paulo e começar a se aprofundar na produção audiovisual. Iniciou a carreira com a produção amadora de filmes, somente com sua bagagem de conhecimento prático. Ainda em São Paulo, ele começou a trabalhar com publicidade. Foi durante essa jornada que conheceu seus colegas de profissão, os quais também produziram o comercial indicado para as premiações internacionais.



