Recuo histórico do spread de risco
O diferencial entre os retornos exigidos para ativos de maior e menor risco no Brasil caiu 26% nos últimos três anos, conforme relatório divulgado nesta quarta-feira pelo Banco Central. O indicador, que mede a percepção de risco dos investidores em relação à economia brasileira, passou de 4,8 pontos percentuais em julho de 2023 para 3,5 pontos percentuais em julho de 2026.
De acordo com o chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Antônio Carlos, "a redução do prêmio de risco é um sinal claro de que o mercado reconhece os avanços na política fiscal e na estabilização da dívida pública". O dado foi apresentado no Relatório de Estabilidade Financeira, que analisa as condições de financiamento no país.
Causas da queda
A redução do spread reflete uma combinação de fatores. O principal deles é o compromisso do governo com o arcabouço fiscal, que limitou o crescimento dos gastos públicos. Além disso, a queda da inflação e a redução da taxa Selic para 8,5% ao ano contribuíram para diminuir a incerteza macroeconômica.
Outro fator relevante foi o aumento da participação de investidores estrangeiros no mercado de títulos públicos, que passou de 18% para 24% no período. "A entrada de capital externo demonstra confiança na solvência do país", afirmou o analista de crédito da XP Investimentos, Renato Silva.
Impacto nos mercados
A queda do prêmio de risco tem efeitos diretos sobre o custo de captação das empresas e do governo. Com spreads menores, as companhias conseguem emitir dívida com taxas mais baixas, estimulando investimentos produtivos. Para o setor público, a economia com juros da dívida pode chegar a R$ 15 bilhões ao ano, segundo estimativas do Tesouro Nacional.
No mercado de ações, a redução do prêmio de risco tende a elevar a atratividade dos ativos brasileiros. O Ibovespa acumulou alta de 12% nos últimos 12 meses, enquanto o fluxo de investimento estrangeiro em renda variável aumentou 35% no mesmo período.
Perspectivas futuras
Apesar da melhora, especialistas alertam que o prêmio de risco ainda é elevado em comparação com países emergentes semelhantes. O Brasil ainda enfrenta desafios como a reforma tributária e a sustentabilidade fiscal de longo prazo. "O spread atual de 3,5 pontos percentuais é menor que a média histórica de 5,2 pontos, mas ainda acima de pares como México e Colômbia", destacou o economista-chefe do Banco Itaú, João Pedro.
O BC prevê que o spread continue recuando gradualmente, podendo atingir 3 pontos percentuais até o final de 2027, caso as reformas estruturais avancem. A instituição reforçou que a manutenção da disciplina fiscal é essencial para consolidar a confiança dos investidores.
Contexto internacional
A redução do prêmio de risco brasileiro ocorre em um cenário global de aversão ao risco moderada, com juros baixos nos países desenvolvidos e busca por yield em mercados emergentes. A guerra comercial entre Estados Unidos e China, no entanto, pode gerar volatilidade e reverter parte dos ganhos. "O Brasil está bem posicionado para atrair capital, mas não está imune a choques externos", ponderou o diretor de Política Monetária do BC, Marina Rodrigues.



