Pix vira alvo de disputa comercial entre Brasil e EUA antes das eleições
Pix vira alvo de disputa comercial entre Brasil e EUA

Lançado em 2020 como ferramenta para transferências instantâneas, o Pix tornou-se o meio de pagamento mais usado no Brasil e agora está no centro de uma disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos. A poucos meses das eleições presidenciais brasileiras, o sistema criado pelo Banco Central é um dos pontos de atrito entre o governo Lula e a gestão Trump.

O que Washington contesta

O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) avalia a imposição de tarifas de 25% sobre parte das exportações brasileiras, com decisão esperada nos próximos dias. A acusação é de que o Brasil favorece um sistema estatal de pagamentos em detrimento de empresas americanas, especialmente operadoras de cartão de crédito. "A gente não precisa pagar taxa nenhuma pelo Pix. Com cartão de crédito tem taxa, anuidade, taxa do banco... Com o Pix não", disse à AFP Paulo Ricardo Conceição, dono de um quiosque em Copacabana.

Impacto do Pix no Brasil

Segundo o Banco Central, o Pix responde por 54% de todas as transações no país. Cerca de 80% da população utiliza a ferramenta. "Antigamente a gente tinha que andar com dinheiro. Agora você pega só o celular e faz o Pix na hora. Acho que facilitou bastante a vida de todo mundo", afirmou à AFP Ingrid Ferreira, servidora pública em Brasília. Pesquisas indicam que mais de 90% dos brasileiros avaliam positivamente o sistema. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em carta ao USTR, destacou que o Pix incluiu milhões de brasileiros antes excluídos do sistema bancário.

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Argumentos americanos

Washington alega que o Banco Central atua como operador e regulador, configurando conflito de interesses. O USTR afirma que os bancos são obrigados a destacar o Pix em seus aplicativos e não podem cobrar tarifas, o que "força os provedores americanos a promoverem seu concorrente brasileiro". Uma fonte do governo brasileiro ouvida pela AFP indicou que a insatisfação vem das empresas de cartão, cuja participação caiu de 23% para 15% desde o lançamento do Pix. "Grande parte da população brasileira trabalha na informalidade ou é formada por pequenos empresários e microempreendedores, que antes dependiam muito das grandes operadoras de cartão e precisavam pagar taxas", explicou à AFP Marco Sanfins, professor da Universidade Federal Fluminense.

Resposta do Brasil

O governo brasileiro rejeita as acusações e argumenta que o Pix ampliou o mercado de pagamentos digitais, beneficiando empresas americanas como Google e Visa. O Banco Central afirma que o número de usuários de cartões continuou crescendo. Brasília também vê a contestação como uma tentativa de proteger a predominância internacional do dólar, já que países como Quênia, Nigéria, Índia e Colômbia também desenvolveram sistemas nacionais de pagamentos instantâneos.

Dimensão política

A disputa ocorre em meio a forte tensão política. Em outubro, Lula disputará a reeleição contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Trump impôs tarifas ao Brasil no ano passado e classificou o julgamento de Jair Bolsonaro como "caça às bruxas". A maior parte dessas tarifas foi posteriormente revogada. Flávio Bolsonaro buscou se distanciar da posição de Washington: "O Pix é bom para o Brasil. E, por incrível que pareça, é bom também para os Estados Unidos", afirmou após encontro no USTR.

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