Mulheres pobres têm 2x mais chance de permanecer na pobreza
Mulheres pobres têm 2x mais chance de continuar na pobreza

Uma pesquisa recente traz um diagnóstico preocupante para as políticas de combate à desigualdade: mulheres em situação de pobreza têm duas vezes mais chance de permanecer nessa condição ao longo da vida do que homens na mesma faixa de renda. O dado, divulgado por especialistas em economia social, reforça o que ativistas e estudiosos já alertavam: a pobreza tem rosto feminino e é estruturalmente mais difícil de superar para mulheres.

Fatores estruturais explicam a diferença

O estudo aponta que a combinação de fatores como a dupla jornada de trabalho, a sobrecarga com cuidados domésticos e a desigualdade salarial no mercado de trabalho cria um ciclo vicioso. Enquanto homens pobres conseguem, com mais frequência, ascender socialmente via empregos formais ou informais de maior renda, as mulheres ficam presas a ocupações precarizadas, com menor remuneração e pouca ou nenhuma proteção trabalhista.

Além disso, a maternidade é um fator determinante. Mulheres com filhos pequenos — especialmente as que chefiam lares monoparentais — enfrentam barreiras adicionais para manter um emprego estável. A falta de creches públicas e de políticas de licença parental igualitária aprofunda a vulnerabilidade, segundo os pesquisadores.

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Impacto na próxima geração

O efeito não se limita à vida adulta. Crianças criadas em lares chefiados por mulheres pobres tendem a ter menos acesso a educação de qualidade, saúde e alimentação adequada, perpetuando o ciclo da pobreza. O estudo destaca que a renda da mulher é mais frequentemente destinada ao bem-estar da família, mas o custo de oportunidade dessa dedicação é alto: menos tempo para qualificação profissional e busca por melhores oportunidades.

Especialistas ouvidos durante a análise afirmam que, sem intervenções específicas, a meta de redução da pobreza extrema fica comprometida. “Não é possível resolver a pobreza sem enfrentar a desigualdade de gênero”, destacou uma das autoras da pesquisa em coletiva de imprensa.

Políticas públicas são apontadas como solução

O relatório sugere um pacote de medidas que inclui ampliação de programas de transferência de renda condicionada, investimento em infraestrutura de cuidados (creches, centros de idosos) e políticas ativas de igualdade salarial. Também recomenda a formalização do trabalho doméstico remunerado e a ampliação do acesso de mulheres a linhas de crédito e programas de empreendedorismo.

Os dados acendem um alerta para o Brasil, que possui uma das maiores taxas de desigualdade do mundo. Segundo estatísticas oficiais, a pobreza atinge proporcionalmente mais mulheres do que homens, mas o novo estudo revela que a mobilidade social é ainda mais assimétrica quando se analisa a persistência da pobreza ao longo do tempo.

Necessidade de ação imediata

Para os pesquisadores, os resultados indicam que as políticas públicas precisam ter recorte de gênero explícito. A simples universalização de benefícios não é suficiente; é preciso atacar as causas estruturais que mantêm as mulheres pobres em situação de desvantagem. A recomendação é que os programas deem prioridade a famílias chefiadas por mulheres e ofereçam condições para que elas possam estudar, trabalhar e gerar renda sem abrir mão do cuidado com os filhos.

“O que vimos é que a pobreza é hereditária para as meninas de forma muito mais intensa do que para os meninos”, explicou a economista responsável pela coordenação do estudo. “Precisamos quebrar esse ciclo com urgência.”

Mudança de paradigma

A pesquisa também reforça a necessidade de se medir a pobreza de forma multidimensional, incluindo aspectos como tempo disponível, acesso a serviços públicos e autonomia financeira. Apenas a renda não captura a realidade das mulheres que trabalham 16 horas por dia entre tarefas domésticas e empregos precários.

Entidades de defesa dos direitos das mulheres já usam os dados para pressionar o poder público. A expectativa é que o estudo sirva de base para a elaboração dos próximos planos plurianuais e para o desenho de orçamentos sensíveis a gênero. Sem isso, o risco é de que a desigualdade persista por mais gerações.

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