Minerais críticos: América Latina enfrenta entraves para aproveitar demanda global
Minerais críticos: América Latina enfrenta entraves

A América Latina tem potencial para se beneficiar da crescente demanda global por minerais críticos, essenciais para a transição energética, a política industrial e aplicações de defesa. No entanto, a região enfrenta obstáculos significativos, como a elevada necessidade de capital, lacunas tecnológicas e a forte dependência do processamento em países asiáticos, especialmente a China. O diagnóstico é de um relatório da agência de classificação de risco Moody's.

Ambiente competitivo bifurcado

O estudo da Moody's aponta que o ambiente competitivo na América Latina para minerais críticos é dividido entre produtores estabelecidos de grande escala e novos participantes, com barreiras mais altas para os últimos. Empresas incumbentes como a Corporación Nacional del Cobre (Codelco) e a Sociedad Química y Minera de Chile (SQM), ambas do Chile, e a Vale, do Brasil, possuem vantagens competitivas. Já os novos entrantes enfrentam dificuldades para obter financiamento sem operações consolidadas ou contratos firmes de offtake, mesmo quando dispõem de recursos de alta qualidade e baixos custos operacionais.

Regulação complexa e riscos de licenciamento

Os regimes regulatórios latino-americanos estão se tornando mais complexos e sujeitos a maior fiscalização, elevando os riscos de licenciamento, estendendo prazos e aumentando a intensidade de capital. Essas mudanças afetam desproporcionalmente os participantes menores e mais novos. Segundo a Moody's, as condições na região são mais complexas para projetos downstream do que para a mineração upstream, devido a obstáculos estruturais persistentes.

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Fatores valorizados por investidores

“Além dos recursos de alta qualidade, os investidores valorizam suporte regulatório, infraestrutura adequada, parcerias técnicas, execução eficaz de políticas ambientais e sociais e gestão disciplinada da exposição aos ciclos de commodities. A incerteza em torno das políticas públicas e regulatória permanece um risco central, podendo provocar atrasos mesmo em projetos que, em outras condições, seriam atrativos”, lista a Moody's. A agência explica que projetos bem estruturados, de baixo custo e alinhados a políticas terão desempenho superior àqueles com maior risco de refinanciamento e execução. Assim, grandes empresas estabelecidas, como Codelco, SQM e Vale, continuarão a atrair investimentos, juntamente com gigantes globais como BHP e Rio Tinto, e novos participantes do segmento de lítio.

Desafios de infraestrutura e logística

“No entanto, a incerteza em torno das políticas, limitações de infraestrutura, desafios ambientais e sociais e volatilidade de preços tendem a pressionar a qualidade do perfil de crédito, elevar os custos de financiamento e atrasar a execução dos projetos”, alerta a Moody's. O relatório destaca que a viabilidade econômica de um projeto pode depender de restrições de infraestrutura e logística, como acesso a energia de baixo custo, água e transporte. “Sistemas rodoviários deficientes e a falta de acesso a portos tornam os custos de produção de lítio muito mais altos na Argentina do que no Chile”, aponta o estudo. Congestionamento portuário e redes de transporte envelhecidas também podem atrasar exportações e elevar custos mesmo para mineradoras estabelecidas no Chile e no Peru.

Dependência tecnológica e riscos de execução

“Os riscos técnicos e de execução também são considerações importantes para os investidores. A produção de materiais para baterias exige conhecimentos químicos avançados, controle consistente do processo e a capacidade de cumprir as rigorosas especificações de qualidade exigidas por clientes globais”, cita o estudo. A Moody's avalia que muitas operadoras latino-americanas não têm essa experiência, aumentando a dependência de parceiros tecnológicos estrangeiros e o risco de atrasos, excessos de custos ou operações de subescala. A China, por exemplo, possui experiência, cadeias de abastecimento integradas e economias de escala que novos participantes não conseguem replicar rapidamente.

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Volatilidade de preços e financiamento

Os riscos de mercado e a volatilidade dos preços adicionam outra camada de incerteza. “Os preços do lítio subiram para cerca de USD 80/kg no final de 2022, antes de cair para cerca de USD 10/kg em 2024, enquanto os preços do cobre também flutuaram com as expectativas de crescimento global e os ciclos de demanda chineses. Essa volatilidade aumenta o custo do capital, complica o financiamento e atrasa as decisões finais de investimento. Projetos com contratos de offtake de longo prazo, baixos custos e balanços patrimoniais sólidos podem suportar mais facilmente esses ciclos do que aqueles que dependem de mercados à vista ou financiamento externo contínuo”, destaca o relatório.

Parcerias como estratégia de mitigação

A Moody's afirma que, como a construção de capacidade de refino e processamento é intensiva em capital, tecnicamente complexa e exige prazos longos, os projetos na América Latina dependem frequentemente de parcerias com fornecedores consolidados. Essas parcerias viabilizam o acesso a conhecimento técnico especializado, asseguram a demanda por meio de compradores previamente definidos e contribuem para a mitigação do risco de financiamento. “Projetos de lítio no Chile e na Argentina, bem como produtores de níquel e lítio no Brasil, firmaram parcerias com empresas asiáticas para tecnologia e contratos de offtake de longo prazo.”

Demanda por minerais críticos

Minerais críticos são matérias-primas essenciais para a transição energética, tecnologias avançadas e segurança nacional, e enfrentam riscos elevados de oferta devido à escassez geológica, concentração geográfica ou limitação de alternativas. A elasticidade dos preços no médio prazo é relativamente baixa, com demanda proveniente de investimentos impulsionados por políticas em bens de capital de longa vida útil, como veículos elétricos, redes elétricas, geração de energia renovável e armazenamento em escala de rede — e não do consumo discricionário.

Usos dos principais minerais

  • Cobre: Essencial para a eletrificação, incluindo veículos elétricos, infraestrutura de recarga, expansão da rede elétrica e sistemas de energia renovável. Sua alta intensidade de uso e substitutos limitados sustentam crescimento forte e contínuo da demanda.
  • Cobalto: Crítico para estabilizar as composições químicas das baterias de íon-lítio, especialmente em veículos elétricos e armazenamento de energia. A demanda geral crescerá em termos absolutos com o aumento da penetração de veículos elétricos.
  • Lítio: Fortemente ligado às baterias de íon-lítio para veículos elétricos e armazenamento de energia. O crescimento será rápido e impulsionado por políticas públicas, apoiado por mandatos de adoção de veículos elétricos e metas de descarbonização da rede elétrica.
  • Níquel: Cada vez mais associado às baterias de veículos elétricos, especialmente composições com alto teor de níquel, que melhoram a densidade energética e a autonomia dos veículos, além da demanda estável por aço inoxidável. A mudança para o níquel grau bateria (classe I) continuará a diversificar o crescimento da demanda.
  • Nióbio: Crucial para o aço de alta resistência e baixa liga, que melhora a durabilidade e reduz o peso no desenvolvimento de infraestrutura. A adoção em aplicações automotivas leves e de energia está aumentando.
  • Terras raras: Grupo de 17 elementos usados em ímãs permanentes para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e eletrônica avançada. O crescimento se acelerará com a eletrificação, a expansão da energia renovável e a ampliação da infraestrutura digital, com poucos substitutos viáveis para aplicações de alto desempenho. O desenvolvimento de data centers aumenta o uso de terras raras para o polimento de nanochips.

Fonte: Moody's