Logística 'just in time' e China moderam preços do petróleo na guerra com Irã
Logística 'just in time' e China moderam preços do petróleo

Empresas e governos conseguiram evitar que os preços da energia disparassem tanto quanto se temia durante a guerra com o Irã ao recorrerem a um sistema de entregas “just in time”, apoiado em inovações digitais e em tecnologia de satélite, que reduz a necessidade de manter grandes estoques de petróleo.

A “Amazon do petróleo”

É possível chamar isso de “Amazon do petróleo”, disse Jim Wicklund, veterano analista do setor e diretor-gerente da gestora de investimentos em energia PPHB, ao comparar a dinâmica da indústria de energia à famosa eficiência da gigante do comércio eletrônico em logística e controle de estoque.

Mesmo com o presidente Donald Trump declarando nesta quarta-feira (8) que o cessar-fogo com o Irã estava “encerrado”, em meio a uma nova troca de ataques militares, o petróleo de referência nos Estados Unidos subiu apenas cerca de 5%, para US$ 74 por barril — bem abaixo do pico de US$ 112 registrado em meados de maio.

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Adaptabilidade logística

Embora operadores de energia possam interpretar os ataques mais recentes e a troca de ameaças como parte dos solavancos de uma negociação turbulenta, eles também foram encorajados pela adaptabilidade da logística global de energia, mesmo diante do maior choque energético da era moderna, quando o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz interrompeu temporariamente quase 20% da oferta mundial de petróleo e gás natural liquefeito.

“Se você voltar aos anos 1970, quando tivemos os choques do petróleo, não havia como saber onde estava o petróleo e o que estava acontecendo com ele”, disse Wicklund à Fortune. “Hoje, eu posso abrir meu terminal e encontrar cada navio-tanque carregado de petróleo no oceano, saber quem é o dono, o que há dentro e para quem ligar para redirecioná-lo para mim. Por isso, os estoques deixaram de ter, nos últimos anos, o mesmo peso que tinham sobre os preços do petróleo.”

“A correlação entre estoques e preço do petróleo caiu de um nível alto para quase nenhuma correlação hoje. Eu já não preciso de estoques físicos como antes. Posso comprar imediatamente nessa Amazon do petróleo e adquirir cargas que já estão no mar”, afirmou.

Lei Jones suspensa

Outro fator que ajudou a logística foi a decisão do governo Trump de suspender temporariamente a aplicação da Lei Jones, em vigor há 106 anos. A norma exige que navios que transportam carga entre portos dos Estados Unidos sejam construídos no país, registrados sob bandeira americana e operados por tripulação americana, o que reduz a quantidade de embarcações disponíveis para mover petróleo bruto e derivados entre portos domésticos.

A suspensão permitiu, por exemplo, que mais navios transportassem combustível da costa do Golfo dos EUA, passando pelo Canal do Panamá até a Califórnia, estado que vinha lidando com o fechamento recente de refinarias e precisava aliviar a escassez.

O fator China

Embora os grandes estoques comerciais de petróleo tenham perdido importância, as reservas estratégicas nacionais dos Estados Unidos — e, sobretudo, da China — se mostraram decisivas. Outra razão importante para os preços do petróleo não terem subido tanto quanto se temia foi o fato de a China ter elevado seus estoques a níveis recordes e reduzido bastante as importações depois do início da guerra.

Antes do conflito, a China importava mais de 11,5 milhões de barris por dia. Em junho, esse volume caiu para menos de 7 milhões de barris diários, reduzindo, na prática, a demanda global por petróleo em quase 5 milhões de barris por dia. Embora Pequim divulgue poucos detalhes, o governo americano estima que as reservas chinesas de petróleo haviam subido para cerca de 1,4 bilhão de barris antes do início da guerra, resultado de anos de política voltada à formação de estoques estratégicos.

“A China como fator de moderação no mercado de energia é algo novo”, disse Arjun Murti, sócio de macroenergia e política da consultoria e gestora Veriten. “Nós não imaginávamos nem prevíamos que a China reduziria as importações de petróleo em uma magnitude tão grande, com impacto tão expressivo.”

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Reservas estratégicas dos EUA

Da mesma forma, a Reserva Estratégica de Petróleo dos Estados Unidos está hoje no menor nível desde 1983, mas ainda guarda mais de 300 milhões de barris de petróleo bruto — eram 319 milhões de barris em 3 de julho, abaixo dos 415 milhões no início da guerra.

E, como Trump quer manter os preços dos combustíveis sob controle, analistas avaliam que há pouca chance de os Estados Unidos começarem a recompor essas reservas antes das eleições legislativas de meio de mandato neste ano. Trump já autorizou a liberação total de 172 milhões de barris ao longo de vários meses, o que significa que os estoques ainda podem cair bem mais antes de começarem a ser recompostos, possivelmente apenas no ano que vem.

Silenciando alarmistas

A resiliência do mercado de energia silenciou os alarmistas que previam petróleo em níveis recordes de US$ 200 por barril, disse Wicklund.

Embora nunca tenha projetado uma disparada tão forte, ele afirmou ter ficado “surpreso” com a queda dos preços do petróleo no fim de junho e em julho.

“Estou começando a acreditar”, disse. “Em vez de tentar descobrir por que o mercado está errado, tente entender por que você está errado.”