Após o terremoto duplo de 24 de junho na Venezuela, a estrutura portuária Los Silos, em La Guaira, foi transformada em um necrotério improvisado. Dezenas de famílias aguardam sob o sol tropical para identificar corpos de parentes desaparecidos. O local, antes usado para armazenamento, agora abriga centenas de corpos enfileirados, cobertos por sacos plásticos e expostos ao calor intenso, que acelera a decomposição.
Famílias enfrentam longa espera e odor nauseante
As autoridades instalaram cadeiras dentro e fora do prédio, além de tendas. A espera é longa, e o luto parece se espalhar entre as pessoas. Militares das Forças Armadas Bolivarianas, armados com fuzis, controlam o acesso. "Tenho medo do que vou encontrar lá dentro, mas é a única maneira de pôr fim a essa agonia", diz uma mulher que procura o sobrinho há quase uma semana. Lá dentro, o cheiro de decomposição é a primeira coisa que chama a atenção. Muitos usam máscaras de tecido, que não bloqueiam o mau cheiro. Com o tempo, alguns se acostumam.
Identificação por fotos e objetos pessoais
Os corpos estão organizados por data de resgate. Uma tenda oferece cremação gratuita, e uma unidade de odontologia forense tenta identificar corpos que já não conservam traços humanos. As famílias têm duas opções: quem acredita reconhecer o parente pelas roupas é encaminhado a uma área específica; os demais se acomodam diante de dois televisores, onde mais de mil imagens de corpos passam em sequência. Os rostos estão inchados, a pele escurecida, com marcas de impactos e calor. As famílias procuram tatuagens, pulseiras, roupas ou objetos. Duas funcionárias ajudam, ampliando detalhes em um iPad.
Relatos de terror e desespero
"Isso parece um filme de terror", diz Liliana González, de 60 anos, moradora de Catia La Mar, que reconheceu o sobrinho de 37 anos por uma tatuagem. "Há corpos inchados, com os olhos para fora, crianças... Nunca vi uma coisa dessas na minha vida", afirma. Modesta Alemán, de 56 anos, veio de Carayaca em busca da irmã mais velha, Matilde, que morava em Playa Grande, um dos locais mais atingidos. "Disseram que não havia sobreviventes. Que todos estavam mortos", conta. Ela permanece do lado de fora do necrotério.
Processo de liberação e burocracia
Quando um corpo é identificado, colhem-se impressões digitais, se possível, e o corpo é colocado em um caixão. Depois, inicia-se a emissão da certidão de óbito. Jéssica Soto, de 42 anos, espera há dois dias a liberação dos corpos da filha, de 15 anos, e da neta, de 3, que ficaram presas no apartamento em Caraballeda. Os corpos foram resgatados na terça-feira (30/6). "Elas estão ali, dentro de um caixão, tomando sol desde ontem. Não me resta outra opção além de esperar e confiar em Deus", diz Soto à BBC News Mundo.
Número de mortos se aproxima de 2,6 mil
O número de mortos já se aproxima de 2,6 mil em toda a Venezuela, e as autoridades acreditam que o total deve aumentar significativamente. González conta que entrou em pânico quando soube que teria de reconhecer o sobrinho sozinha, mas dois funcionários a acompanharam. "Graças a Deus, porque, numa hora dessas, é bom sentir a mão de alguém." Ao ver o corpo, ela quase desmaiou e sentiu náuseas. A tia dela continua sob os escombros, e ela teme ter que voltar ao necrotério.



