O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) apresentou uma forte surpresa baixista em julho, elevando significativamente as chances de um corte na taxa Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em agosto. O indicador, considerado uma prévia da inflação oficial, subiu apenas 0,15% no mês, muito abaixo da mediana das projeções do mercado, que apontava para 0,30%.
Número surpreende analistas
A leitura do IPCA-15 veio bem abaixo do esperado, consolidando um cenário de desaceleração inflacionária mais rápida que a prevista. Nos últimos 12 meses, o índice acumula alta de 3,85%, dentro do intervalo da meta perseguida pelo Banco Central, que é de 3,25% com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. “O dado de hoje mostra que a inflação está cedendo de forma mais intensa, principalmente nos itens voláteis, como alimentos e combustíveis”, afirmou Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
Impacto na política monetária
Com a surpresa baixista, cresce a expectativa de que o Copom possa iniciar um ciclo de afrouxamento monetário já em sua próxima decisão, marcada para os dias 6 e 7 de agosto. Atualmente, a Selic está em 13,75% ao ano, e o mercado vinha dividido entre a manutenção e um corte de 0,25 ponto percentual. “A probabilidade implícita de um corte de 0,50 ponto percentual subiu de 10% para 40% após a divulgação do IPCA-15”, destacou Rafaela Vitoria, economista-chefe do Banco Inter. Ela ressaltou que a desaceleração do índice de serviços, que passou de 0,40% em junho para 0,25% em julho, foi um dos principais vetores da surpresa.
Composição do índice
A desagregação do IPCA-15 mostrou quedas expressivas nos preços de alimentos (-0,12%) e transportes (-0,05%), puxados pela deflação da gasolina (-0,30%) e do etanol (-0,80%). Já o grupo saúde e cuidados pessoais subiu 0,40%, enquanto habitação avançou 0,20%. O núcleo da inflação, que exclui itens voláteis, também desacelerou, passando de 0,42% para 0,28% na comparação mensal. “A composição do IPCA-15 é positiva, com disseminação da desinflação para bens e serviços”, analisou Diego Fonseca, economista da XP Investimentos.
Reação do mercado
Os mercados financeiros reagiram de forma imediata: as taxas dos contratos futuros de juros caíram, o Ibovespa subiu e o dólar comercial recuou 1,5%, cotado a R$ 4,85. A curva de juros passou a precificar uma probabilidade de 70% de corte de 0,25 ponto percentual na Selic em agosto, e de 85% de um novo corte em setembro. O relatório Focus, divulgado nesta segunda-feira, já havia indicado redução da expectativa de inflação para 2026, de 4,10% para 4,05%.
Perspectivas fiscais
Apesar do alívio inflacionário, economistas ponderam que o cenário fiscal ainda impõe riscos. “A surpresa baixista do IPCA-15 é bem-vinda, mas o Banco Central precisará manter a cautela. O arcabouço fiscal em discussão no Congresso e o nível de endividamento público seguem como focos de atenção”, afirmou Flávio dos Santos, professor de economia da FGV. Ele acrescentou que a comunicação do Copom será crucial para ancorar as expectativas de inflação de longo prazo.
Impacto no consumidor
Para o consumidor, a tendência de queda da inflação alivia o poder de compra. “Com a inflação mais baixa, a renda disponível aumenta, o que pode estimular o consumo e a retomada da economia”, comentou Thadeu de Freitas. O IPCA-15 de julho reforça a narrativa de que o pior da inflação já passou, abrindo espaço para o banco central iniciar a flexibilização monetária. A decisão do Copom, no entanto, dependerá não apenas de dados de inflação, mas também da atividade econômica e do cenário externo.



