IA na China amplia desigualdade entre cidades, dizem economistas
IA na China amplia desigualdade entre cidades

Na fábrica da Fuyao Glass Industry Group em Hefei, braços robóticos operam em sincronia na linha de produção. A imagem, registrada pelo fotógrafo Qilai Shen, da Bloomberg, simboliza o avanço da automação que impulsiona a economia chinesa. Contudo, esse desenvolvimento não chega de forma igualitária a todas as cidades do país.

Economistas apontam que o crescimento gerado pela inteligência artificial (IA) está concentrado em um grupo restrito de municípios — os chamados centros inteligentes, que reúnem infraestrutura de ponta, universidades de alto nível e ecossistemas de inovação. As demais localidades, especialmente as do interior, enfrentam dificuldades para participar dessa nova fase econômica, o que acentua as desigualdades regionais históricas.

A força dos polos de inovação

Hefei é um exemplo claro dessa dinâmica. A capital da província de Anhui se consolidou como um dos principais polos de manufatura avançada e pesquisa tecnológica da China. A unidade da Fuyao Glass ali instalada emprega robôs para otimizar a fabricação de vidros automotivos, reduzindo custos e aumentando a precisão. A cidade também abriga laboratórios e empresas voltadas para inteligência artificial, beneficiando-se de investimentos estatais e privados.

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Shenzhen, considerada o Vale do Silício chinês, Pequim, Xangai e Hangzhou formam o núcleo duro da inovação nacional. Essas metrópoles atraem talentos de todas as províncias, concentram os maiores orçamentos de pesquisa e desenvolvimento e sediam algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo. A proximidade com universidades de elite e com o capital de risco cria um ambiente fértil para o surgimento de startups e para a expansão de grandes corporações.

Esse ecossistema gera empregos de alta renda, aumenta a arrecadação municipal e melhora a infraestrutura local, criando um ciclo de prosperidade que se autoalimenta. Governos municipais desses centros também competem para oferecer incentivos fiscais e subsídios, aprofundando ainda mais a vantagem competitiva em relação a outras regiões.

O abismo das regiões periféricas

No outro extremo, cidades do interior e do norte do país, historicamente dependentes de agricultura, mineração e indústria tradicional, encontram barreiras quase intransponíveis para ingressar na economia do conhecimento. A falta de fibra óptica de alta capacidade, a carência de técnicos e engenheiros e a ausência de financiamento para inovação são obstáculos frequentes.

Além disso, a migração de jovens qualificados para os polos tecnológicos deixa as cidades menores com uma população envelhecida e menos produtiva. Esse êxodo cerebral reforça a estagnação, pois reduz a base de consumo e afasta investimentos que demandam mão de obra especializada. Os economistas destacam que esse processo de retroalimentação negativa é particularmente difícil de reverter.

Impactos sociais e resposta do governo

A desigualdade entre cidades tem consequências diretas na vida das pessoas. Enquanto os moradores dos centros inteligentes têm acesso a serviços de saúde de qualidade, educação avançada e oportunidades de trabalho bem remuneradas, as populações de outras áreas convivem com infraestrutura precária, salários menores e menos perspectivas de ascensão social.

O governo chinês reconhece a gravidade do problema e tem adotado medidas para mitigá-lo. Entre elas estão a construção de novas infraestruturas de telecomunicações no interior, a criação de zonas econômicas especiais em cidades médias e programas de apoio à chegada de empresas de tecnologia a regiões menos desenvolvidas. Essas ações, no entanto, são vistas por economistas como insuficientes diante da velocidade da transformação digital.

Os economistas argumentam que é necessário um esforço coordenado para capacitar a força de trabalho local, melhorar o acesso à internet de alta velocidade e criar condições para que as empresas de IA possam operar fora dos grandes centros. Sem políticas públicas robustas, o risco é que o país se torne ainda mais fragmentado, com um arquipélago de prosperidade cercado por um vasto interior estagnado.

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Perspectivas para o futuro

A China já é líder global em muitas áreas da inteligência artificial, como visão computacional e reconhecimento facial. O país também investe maciçamente em cidades inteligentes, com sensores e sistemas de gestão conectados em tempo real. Mas, para que esses avanços beneficiem a população como um todo, é preciso que o progresso se espalhe pelo território nacional.

A cena dos braços robóticos em Hefei, portanto, carrega um simbolismo duplo. Representa o extraordinário potencial da tecnologia chinesa, mas também lembra que os frutos dessa revolução são distribuídos de forma desigual. Para economistas, o verdadeiro teste do modelo de desenvolvimento chinês será a capacidade de incluir as cidades que ficaram para trás nesse novo ciclo de crescimento.