A desindustrialização precoce da América Latina não causa apenas danos econômicos, mas também revela um fenômeno paralelo: a existência de uma legião de 'especialistas' que minimizam o problema. Muitos desses teóricos, que provavelmente nunca pisaram em uma fábrica, veem a perda de relevância da indústria como algo natural e até 'moderno'. Para eles, um setor de serviços forte seria suficiente para elevar a renda per capita de um país ao nível dos desenvolvidos – que, ironicamente, se industrializaram no passado.
O declínio da indústria brasileira
No Brasil, a participação da indústria de transformação no PIB caiu de 35,9% para 13,7% em 40 anos. Esse argumento é usado para desqualificar políticas de reindustrialização e defesa comercial contra importações predatórias, tachadas de antiquadas e protecionistas. Ignoram-se exemplos asiáticos como Coreia do Sul, Japão, Vietnã, Tailândia e China, que apostaram na indústria e colheram crescimento econômico.
A estratégia chinesa e seus impactos
A China, com seu 14.º plano quinquenal (2020), reforçou o papel das fábricas como motor de crescimento, visando elevar a renda per capita a padrões de países moderadamente desenvolvidos até 2035. No entanto, a economia em desaceleração não gera demanda doméstica suficiente para absorver toda a produção industrial. Para preservar as metas, o Estado chinês passou a subsidiar sua indústria, vendendo produtos abaixo do custo no mercado internacional.
Estados Unidos, México e União Europeia têm reforçado defesas comerciais contra as importações predatórias chinesas. No Brasil, os déficits na balança comercial de manufaturados devem atingir US$ 146,4 bilhões em 2025, um recorde. Segundo a Coalizão Indústria, que representa 44,8% do PIB industrial, as importações chinesas nos segmentos mais afetados (aço, automóveis, brinquedos, calçados, eletroeletrônicos, máquinas, têxteis e plásticos) cresceram quase 60% entre 2022 e 2025.
O caso do aço
Especificamente no aço, a importação de laminados cresceu 83% em volume no período, com 64% vindo da China. Recentemente, o governo brasileiro aprovou um robusto arcabouço de defesa comercial para o setor, gerando expectativa de queda nas importações.
A liderança chinesa na produção global
Enquanto se discute se vale apostar na indústria, a China consolida sua liderança. Segundo a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), o país elevou sua fatia na produção global de 2,8% em 1990 para 32% em 2024, com previsão de 45% em 2030. No mesmo período, a América Latina recuou de 9,2% para 5%, e o Brasil viu sua participação encolher de 2,8% para 1,17% desde 1995.
A relevância da indústria para o crescimento
Levantamento da Coalizão Indústria mostra que, em 80% das vezes que o Brasil cresceu acima de 4% ao ano, a indústria de transformação cresceu ainda mais e puxou o PIB. Apesar do baixo crescimento previsto para 2025, os investimentos industriais devem atingir R$ 1,1 trilhão entre 2026 e 2030. O descaso com a indústria é míope: somente uma indústria forte pode acelerar o crescimento de forma sustentada, gerando renda, empregos e bem-estar para toda a sociedade.



