Em maio de 2026, a divulgação do relatório Radar IDHM pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) revelou que o Brasil registrou um índice de 0,805 em 2024, cruzando pela primeira vez o limiar do desenvolvimento humano muito alto. O resultado representa o amadurecimento de políticas de Estado que resistiram a crises políticas e à pandemia de Covid-19.
Três pilares do IDHM: educação, longevidade e renda
Dos três pilares que compõem o índice, a educação foi o motor do ciclo recente, subindo de 0,679 em 2012 para 0,798 em 2024. O relatório identifica o Bolsa Família como mecanismo central desse salto. Criado em 2003, o programa começou a produzir efeitos visíveis nos índices de escolaridade a partir de 2012, quando a primeira geração de beneficiários completou o ciclo básico de estudos. Ao vincular o benefício à frequência escolar, retirou crianças do trabalho infantil e as manteve nas salas de aula, com efeito especialmente pronunciado entre famílias negras de baixa renda.
Longevidade e renda: avanços e desafios
O pilar da longevidade, que mede a expectativa de vida ao nascer, é o mais maduro, passando de 0,829 em 2012 para 0,860 em 2024, resultado de décadas de consolidação do Sistema Único de Saúde. Já a renda é o indicador mais frágil, evoluindo de 0,732 para 0,760 no mesmo período, o menor avanço entre os três eixos, permanecendo na faixa de “alto”. A renda domiciliar per capita da população branca alcançou R$ 1.208,58 em 2024, enquanto a da população negra ficou em R$ 673,65 — uma diferença de 79%.
Recorte racial: desigualdade persiste
O IDHM da população branca chegou a 0,851 em 2024, na faixa “muito alto”. O da população negra ficou em 0,774, na faixa “alto”. A diferença relativa caiu de 14% para 9% entre 2012 e 2024, progresso genuíno, mas a velocidade ainda condena: uma geração inteira separa os dois grupos. Sem incluir a população negra na equação central do desenvolvimento, o Brasil não se viabilizará como projeto de país no século XXI.
Nordeste lidera avanços proporcionais
O Nordeste oferece a prova mais animadora desse ciclo: Alagoas, Piauí e Rio Grande do Norte lideraram os avanços proporcionais no IDHM entre 2012 e 2024, e sete das nove regiões metropolitanas nordestinas já ostentam índice “muito alto”. Trata-se do efeito acumulado de políticas sustentadas no tempo, aplicadas onde o ponto de partida era mais baixo e, portanto, onde cada real bem gasto produz mais resultado.
Desafios futuros: qualidade do gasto e democratização da riqueza
O Brasil aplica, em proporção do PIB, valores comparáveis aos de países com resultados muito superiores nos mesmos indicadores. O próximo ciclo exige respostas diferentes: não mais só ampliar o acesso, mas elevar a qualidade; não mais só distribuir renda, mas criar condições para que ela seja gerada. Como o próprio Pnud registra, o Brasil modernizou sua economia sem democratizar plenamente o acesso à riqueza. A base institucional está bem erigida. O que se constrói sobre ela — e para quem — é a questão que importa a partir de agora.



