Um vídeo que circulou nas redes sociais neste fim de semana mostra um jovem de 19 anos imitando uma pessoa com paralisia cerebral na Praça da Inclusão, no bairro Enseada do Suá, em Vitória. As imagens, gravadas na noite de sábado (20), geraram forte repercussão e manifestações de repúdio ao capacitismo.
O que aconteceu
Fabrício de Oliveira Santos Freitas, de 19 anos, aparece sentado em um balanço adaptado do parque, enquanto sua irmã, Layla de Oliveira Santos Freitas, de 23 anos, grava e ambos riem. O vídeo foi publicado por Layla em seu perfil em uma rede social. Ao ver a publicação, a empreendedora Kamylla Rodrigues, mãe de um adolescente de 14 anos com paralisia cerebral, decidiu denunciar o caso.
“Eu sinto na pele, todos os dias, a busca por inclusão, a busca pelo respeito, a busca pela dignidade de viver de uma pessoa com deficiência. Então, não é um caso que deve ser levado como brincadeira. [...] Como que uma pessoa consegue entrar dentro de um parque desse e fazer esse tipo de ‘brincadeira’? Para mim, foi deboche, foi abuso. Como eu falei, foi capacitismo e capacitismo é crime”, afirmou Kamylla.
Denúncia e investigação
Kamylla registrou um boletim de ocorrência na 1ª Delegacia Regional de Vitória. A Polícia Civil informou que “as diligências iniciais e medidas legais foram adotadas e o caso seguirá sob investigação da corporação, que trabalhará para que o(s) suspeito(s) seja(m) responsabilizado(s)”. A empreendedora também foi orientada a registrar o caso no Ministério Público do Espírito Santo (MPES), que não retornou o contato até a publicação desta reportagem.
O capacitismo – preconceito contra pessoas com deficiência baseado na crença de que elas são inferiores ou incapazes – é crime, com pena de reclusão de 1 a 3 anos e multa, conforme a legislação brasileira.
Retratação e repercussão
Em nota divulgada na segunda-feira (22), Layla se manifestou dizendo que o conteúdo foi “inadequado” e que em “nenhum momento houve a intenção de discriminar, ridicularizar, menosprezar ou incentivar qualquer forma de preconceito contra pessoas com deficiência”. Ela afirmou ainda que recebeu críticas com humildade e que utilizará o episódio como “oportunidade de reflexão e aprendizado”. No entanto, disse também estar preocupada com “mensagens ofensivas e ameaçadoras” que vem recebendo, e que adotará medidas para resguardar sua integridade e de seu irmão.
Kamylla, por sua vez, disse que Layla lhe enviou mensagens pedindo desculpas, mas manteve sua posição: “Para mim, aquilo não foi uma brincadeira. Foi uma vitória aquele parque acessível. Então, tem que ser feito bom uso dele. Ele não é motivo de chacota, de brincadeira, de deboche”.
Repúdio de entidades e prefeitura
A Praça Viver Vitória, nome oficial do parque, foi inaugurada em abril deste ano e é o primeiro parque público da capital capixaba totalmente projetado para pessoas com deficiência. A Prefeitura de Vitória repudiou, em nota, “esse e qualquer outro ato de preconceito e discriminação”, reforçando a importância do equipamento público para “a formação de uma sociedade mais empática, consciente e inclusiva desde a infância”.
A Associação Capixaba de Paralisia Cerebral (ACPC) também manifestou “profundo repúdio e indignação”, afirmando que os irmãos “fizeram pouco caso da dor e da luta de inúmeras famílias”. Em nota, a ACPC complementou: “Não se trata de uma simples brincadeira. Trata-se de um ato de desrespeito, preconceito e capacitismo, que fere a dignidade de pessoas que enfrentam diariamente inúmeros desafios e de famílias que dedicam suas vidas para garantir cuidado, inclusão, respeito e uma melhor qualidade de vida para seus filhos e familiares”. A associação reforçou que “o respeito à dignidade humana é um princípio inegociável”.



