O ex-jogador de rugby Gareth Thomas, que em 2009 se tornou o primeiro atleta profissional em atividade a declarar homossexualidade e em 2019 revelou viver com HIV, está no Rio de Janeiro para a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026). Em entrevista exclusiva, ele destacou que é possível ter uma vida plena com o vírus, mas que a desinformação ainda alimenta o preconceito.
Estigma persiste apesar dos avanços científicos
Thomas lamentou que o conhecimento público sobre o HIV esteja defasado em relação à ciência. “Pessoas vivendo com HIV que estão sob tratamento eficaz não transmitem o vírus sexualmente; esse é um fato que todos deveriam saber”, afirmou. A afirmação se baseia no conceito de Indetectável = Intransmissível (I=I), comprovado por estudos globais.
Uma pesquisa inédita da campanha Tackle HIV, realizada em 2026, expõe a lacuna de informação no Brasil: 36% dos entrevistados ainda ignoram que homens heterossexuais correm risco de contrair o vírus, e apenas 29% sabem que pessoas com carga viral indetectável não transmitem o HIV sexualmente. O Brasil tem a maior prevalência de HIV da América Latina.
Trajetória de superação dentro e fora do campo
Thomas lembrou que, ao revelar a orientação sexual em 2009, ainda jogava rugby profissionalmente e enfrentou comentários hostis da torcida. “Alguns comportamentos eram difíceis de suportar, mas meus companheiros de equipe me apoiaram”, disse. Ele vê poucos atletas abertamente gays no esporte e questiona os motivos. “Precisamos nos perguntar por quê.”
O ex-jogador também falou sobre o autoestigma que gerenciou após o diagnóstico. “Precisei de conhecimento e compreensão; uma vez que fiz isso, senti-me muito mais preparado para lidar com o estigma vindo de outras pessoas.” Hoje, ele escala montanhas, corre maratonas e participa de provas de Ironman – “O HIV não me limita”.
Esporte como ferramenta de transformação
Thomas lidera a campanha Tackle HIV, que usa os valores do rugby – integridade, trabalho em equipe, solidariedade, disciplina e inclusão – para educar o público. “O esporte tem uma capacidade única de transformar mentalidades”, afirmou. No Rio, realizou atividades na praia de Ipanema com jovens, promovendo testes rápidos e informação.
Sobre a resistência ao conceito I=I, Thomas destacou o peso histórico. “Durante anos, as pessoas ouviram que o HIV era uma sentença de morte, e isso gerou uma atitude profundamente enraizada.” Ele defende que a educação é essencial para mudar essa percepção.
Apelo à testagem e ao fim do estigma
Thomas deixou uma mensagem direta: “Encontrem forças para fazer o teste. Saber sua condição sorológica é fundamental. Se todos fizéssemos o teste, um dia poderíamos acabar com todos os novos casos de HIV.” Ele também se disse grato pelo apoio do rugby brasileiro e do Instituto Cultural Barong.
“Se pudermos ajudar a tornar isso realidade, um dia alcançaremos nosso objetivo de erradicar o HIV”, concluiu Thomas, que vê as duas metas – fim da aids como ameaça à saúde pública e fim do estigma – como diretamente ligadas. “Juntos, todos podemos fazer a nossa parte.”



